{"id":2175,"date":"2025-11-11T21:28:08","date_gmt":"2025-11-12T00:28:08","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2175"},"modified":"2025-11-11T21:59:58","modified_gmt":"2025-11-12T00:59:58","slug":"nao-e-so-uma-fase-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2175","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma fase, m\u00e3e!"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(Imagem: Montagem por Alessandra Ueno)<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Hist\u00f3rias de adolescentes e ex-adolescentes rebatem o r\u00f3tulo da rebeldia, e desvelam o que est\u00e1 por tr\u00e1s do inc\u00f4modo com a postura contestadora dos jovens\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><b>Por <\/b>B\u00e1rbara Bigas<\/p>\n<p>Vers\u00e3o em \u00e1udio:<\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: Audiodescri\u00e7\u00e3o - N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma fase, m\u00e3e!\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/0m4nIrr8KECnehm2J1zbmp?si=931d8f0d1dcc4eff&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em um fim de semana qualquer, Gabrielle Z\u00edlio, ent\u00e3o com 14 anos, saiu de casa alegando que iria dormir na casa de sua melhor amiga. Na verdade, ela estava indo para a casa de seu namorado. Seus pais n\u00e3o o conheciam, nem sequer sabiam que a jovem mantinha um relacionamento em t\u00e3o tenra idade. Para ela, o ato era digno: existia uma euforia em fazer aquilo sem que ningu\u00e9m soubesse, em tomar conta da pr\u00f3pria vida. Era pura e simplesmente uma vontade sua \u2014 interferir nela s\u00f3 tornaria tudo pior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Horas mais tarde, a mentira provou ter perna curta, como previa o ditado popular: sua m\u00e3e apareceu para busc\u00e1-la na porta da casa do namorado. O motivo? Sua av\u00f3 havia passado mal e a fam\u00edlia precisava estar reunida para lidar com o susto. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Dali, ela foi direto atr\u00e1s de Gabi na casa da suposta amiga, e acabou descobrindo a verdade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje com 26 anos, disciplinada como sua profiss\u00e3o de advogada pede, Gabi nem sempre se deu bem com as normas. Na adolesc\u00eancia, ela queria se destacar e experimentar o mundo do seu jeito \u2014 mas era confrontada diretamente com alertas de seus pais, que tentavam fazer com que ela n\u00e3o extrapolasse os limites e se colocasse em risco. Junto da vontade de cuidado, um brinde: ser chamada de \u201crebelde\u201d. \u201cAinda muito nova eu iniciei muitas coisas que s\u00e3o coisas de adulto, sempre fui precoce: bebi muito jovem, fumei muito jovem, sa\u00ed bastante de casa\u201d, analisa Gabi sobre aquele per\u00edodo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Morando na cidade de Ribeir\u00e3o Preto, no interior de S\u00e3o Paulo, ela tinha motivos o bastante para querer se diferenciar. Nascida em S\u00e3o Paulo, tinha como refer\u00eancia os amigos da capital, mas de volta \u00e0 cidade onde vivia, via outro tipo de tend\u00eancia e comportamento entre as pessoas de sua idade. \u201cQuando eu vinha passar as minhas f\u00e9rias em S\u00e3o Paulo, eu convivia com os meus amigos super descolados. A\u00ed eu chegava em Ribeir\u00e3o e todo mundo estava falando do Luan Santana\u201d, conta. Essas diferen\u00e7as culturais eram definitivas para Gabi: ela queria mostrar um outro lado de si, que se diferenciava das outras adolescentes. \u201cEra uma busca por autonomia e uma busca por auto-afirma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Eu queria me bastar e ter independ\u00eancia, mas tamb\u00e9m queria me encaixar\u201d, conclui.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando olha para tr\u00e1s, ela tem essa interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos. Mas na \u00e9poca em que vivia todas essas coisas, o r\u00f3tulo de \u201crebelde\u201d a perseguia, vindo especialmente de seus pais e dos pais de suas amigas. Enquanto tentava agir de acordo com os pr\u00f3prios termos, Gabi enfrentou alguns conflitos com seus pais, entre castigos e discuss\u00f5es, em que ela n\u00e3o entendia o que estava fazendo de errado. Criada majoritariamente pela m\u00e3e, foi com ela que as piores brigas aconteceram. \u201cNessa minha fase da adolesc\u00eancia, minha rela\u00e7\u00e3o com minha m\u00e3e era p\u00e9ssima, a gente discutia muito. Ela ficava mal porque tinha rea\u00e7\u00f5es ruins e\u00a0 achava que passava do ponto, mas ao mesmo tempo eu estressava muito ela e era muito mal educada\u201d.<\/span><\/p>\n<h2><b>Linha cruzada<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse local confuso da adolesc\u00eancia, onde muitas vezes n\u00e3o se entende completamente o que \u00e9 certo e o que \u00e9 errado, \u00e9 definido como um \u201cper\u00edodo de espera\u201d por Paula Fontana Fonseca, psic\u00f3loga do Servi\u00e7o de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (IPUSP). \u201cNo adolescente, o desenvolvimento biopsicol\u00f3gico do corpo j\u00e1 aconteceu e ele j\u00e1 tem a possibilidade de fazer coisas tanto quanto o adulto, mas a sociedade pede para ele esperar para fazer determinadas coisas\u201d, explica Paula. Tal conceito foi apresentado e discutido pelo psicanalista italiano-brasileiro Contardo Calligaris (1948-2021) no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A Adolesc\u00eancia<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Publifolha, 2009).\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A express\u00e3o \u201cadolesc\u00eancia\u201d surge apenas no s\u00e9culo 16 entre as classes sociais mais privilegiadas, onde ser adolescente significava poder estudar por mais tempo, ao inv\u00e9s de come\u00e7ar a trabalhar ainda jovem. \u201cA adolesc\u00eancia em si \u00e9 consequ\u00eancia do aumento da expectativa de vida de um ser humano, da complexifica\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es familiares, comunit\u00e1rias e sociais\u201d, diz Laura Carrasqueira Bechara, psicanalista e doutora em psicologia cl\u00ednica pelo Instituto de Psicologia da USP. E nesse tema, existe complexidade de sobra: comumente, o adolescente \u00e9 cobrado de certa maturidade pois j\u00e1 saiu da inf\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m se v\u00ea cercado de limita\u00e7\u00f5es pois ainda n\u00e3o \u00e9 adulto. A contradi\u00e7\u00e3o imposta nessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 complexa de entender e de lidar, tanto para o adolescente quanto para o adulto que o instrui, e muitas vezes acaba sendo um t\u00f3pico pouco abordado nesse conv\u00edvio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para o adolescente, \u00e9 importante que ele saiba que tentar viver com a contradi\u00e7\u00e3o deste momento da vida pode ser valioso para ele mesmo. \u201cA adolesc\u00eancia \u00e9 um tempo de viver essa contradi\u00e7\u00e3o e poder experiment\u00e1-la no tempo presente, poder criar experi\u00eancias que te ajudam a construir um entendimento seu como adulto que vai servir dali para frente\u201d, afirma Paula. Ainda segundo a psic\u00f3loga, o desenvolvimento humano n\u00e3o \u00e9 linear, portanto, tentar superar rapidamente as contradi\u00e7\u00f5es significaria apressar as coisas, deixando de viver aprendizados importantes e intr\u00ednsecos deste momento da vida.\u00a0<\/span><\/p>\n<h2><b>De uma gera\u00e7\u00e3o para a outra<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em contato com essa solicita\u00e7\u00e3o de espera por parte dos adultos, muitas vezes o adolescente reage de maneira contestat\u00f3ria, sendo erroneamente classificado como \u201crebelde\u201d. \u201cA contesta\u00e7\u00e3o acontece em todos os momentos da vida e ela \u00e9 \u00f3tima, se n\u00e3o ser\u00edamos todos conformados\u201d, diz Paula. Mas quando a contesta\u00e7\u00e3o entra num campo negativo, d\u00e1 origem ao embate \u2014 aquilo que Gabi enfrentava com sua m\u00e3e.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cDo ponto de vista do adolescente, tem certas posi\u00e7\u00f5es que naquele momento para ele s\u00e3o definitivas. \u00c9 aquilo que ele acredita, \u00e9 aquilo que ele \u00e9 e que ele pensa. E tudo isso \u00e9 verdade. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade o ponto de vista do adulto, que olha e diz que \u00e9 poss\u00edvel mudar de ideia ao longo da vida\u201d, explica Paula.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O adulto, pensando nas viv\u00eancias que j\u00e1 teve, tende a entender que essas certezas que o adolescente tem s\u00e3o male\u00e1veis, e o adolescente, desejando experimentar essa certeza que adquiriu sozinho, em sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, pode n\u00e3o se sentir acolhido. \u201cA forma como o adulto se endere\u00e7a para o adolescente muitas vezes faz com que o adolescente entenda que n\u00e3o tem conversa com os mais velhos. \u2018Eles n\u00e3o me entendem, eles n\u00e3o me reconhecem\u2019, enfim, os adolescentes est\u00e3o se sentindo deslegitimados. E \u00e9 isso que faz virar um embate, e n\u00e3o uma simples confronta\u00e7\u00e3o\u201d, diz.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De Gabrielle para Miguel Alves Ribeiro, atualmente com 15 anos, mudou-se a gera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o totalmente os costumes. \u201cNo m\u00eas passado eu queria sair com a minha namorada, mas minha m\u00e3e falou que j\u00e1 estava tarde, a\u00ed eu briguei com ela e ela me falou que eu estava sendo rebelde\u201d, conta o adolescente em entrevista \u00e0 <\/span><b>Babel<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Dentro da rotina de Miguel, o que ele mais deseja fazer \u00e9 sair com os amigos e com a namorada e n\u00e3o ter hora definida para voltar para casa \u2014 mas sua vontade encontra barreiras nas limita\u00e7\u00f5es de hor\u00e1rio impostas pelos seus pais. \u201cMinha m\u00e3e sempre pede para eu mandar mensagem para ela avisando onde eu estou, que horas eu vou voltar, se eu j\u00e1 comi\u201d, explica. \u201cEu acho importante seguir o que eu quero, mas tamb\u00e9m o que minha m\u00e3e fala, porque n\u00e3o d\u00e1 para ceder s\u00f3 para um lado\u201d, afirma o jovem. E mesmo n\u00e3o fazendo nada que o coloque em perigo, Miguel \u00e9 chamado de rebelde pela fam\u00edlia. \u201cNomear a adolesc\u00eancia de rebelde n\u00e3o corresponde \u00e0 experi\u00eancia que os adolescentes t\u00eam e nem est\u00e1 criando proximidade com eles\u201d, diz Paula.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante a fase adolescente de Gabrielle, a sua rebeldia tamb\u00e9m tinha hora para acabar. \u201cUma vez, consegui convencer os meus pais a me levarem na festa de anivers\u00e1rio de um amigo do meu namorado em uma ch\u00e1cara. Eu tinha 14 anos. Quando cheguei l\u00e1, s\u00f3 tinha gente mais velha e, a cada canto que eu olhava, tinha gente cheirando coca\u00edna, outras drogas pesadas e tinha muita bebida. Fiquei com a consci\u00eancia pesada e liguei para o meu pai para ele me buscar. Eu era rebelde at\u00e9 certo ponto. Quando eu via que minha vida estava em risco, eu sa\u00eda fora, tinha um pouco de no\u00e7\u00e3o\u201d, relembra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As hist\u00f3rias compartilhadas por Gabrielle e Miguel ajudam a esclarecer que, muitas vezes, o problema da rebeldia na adolesc\u00eancia come\u00e7a justamente naqueles que chamam os adolescentes dessa forma. Isto \u00e9, o r\u00f3tulo de rebelde tem servido mais para explicar a ang\u00fastia do adulto em n\u00e3o entender as mudan\u00e7as que acontecem no adolescente em crescimento e em, muitas vezes, n\u00e3o conseguir participar daquele desenvolvimento de forma harmoniosa. \u201cMuitas vezes, o adulto quer mostrar que sente falta daquela presen\u00e7a, de estar junto com aquela pessoa em casa, mas isso \u00e9 feito de tal forma que o adolescente se sente cobrado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao se sentir cobrado, ele tem vontade de preservar mais ainda o espa\u00e7o dele\u201d, explica Paula. Sendo a adolesc\u00eancia um momento de busca por refer\u00eancias pr\u00f3prias que excedam as refer\u00eancias familiares, \u201ca gente tem que dar chance para os adolescentes fazerem algo pr\u00f3prio com aquilo que a gente ofereceu como refer\u00eancia\u201d, conclui a psic\u00f3loga.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando um adolescente n\u00e3o se considera rebelde mesmo diante dessa imposi\u00e7\u00e3o que vem do mundo adulto, isso desperta uma curiosidade: afinal, quem est\u00e1 certo e quem est\u00e1 errado? N\u00e3o existe uma resposta correta. Tudo vai depender do ponto de vista. \u201cA rebeldia \u00e9 uma ideia de cria\u00e7\u00e3o de outras possibilidades no mundo, diferentes daquelas que s\u00e3o colocadas. Se \u00e9 isso que acontece do lado dos adolescentes, seria ent\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o criadora e isso \u00e9 uma express\u00e3o de criatividade super interessante\u201d, analisa Paula. Ao mesmo tempo, seria uma ilus\u00e3o pensar que, ao sair da adolesc\u00eancia, existiria uma liberdade total de escolha.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A dificuldade de di\u00e1logo acompanhou a adolesc\u00eancia de Gabi e todos os conflitos que teve com sua fam\u00edlia, mas conseguiu lhe deixar uma li\u00e7\u00e3o: h\u00e1 formas saud\u00e1veis e pac\u00edficas de lidar com essa fase. \u201cMuitas coisas eu acho que se tivessem sido conversadas, eu teria sido um pouco menos rebelde. Se minha m\u00e3e tivesse sido mais aberta para falar sobre algumas coisas, eu n\u00e3o teria sa\u00eddo escondida. Muitas coisas que eu falava com ela, eu sentia que ela j\u00e1 vinha repreendendo, j\u00e1 vinha com julgamento. Isso me retra\u00eda e eu sentia que eu n\u00e3o podia mais falar. Mas algumas coisas eu reconhe\u00e7o que elas tinham sim muito sentido e eu acho que gra\u00e7as a elas, eu n\u00e3o me ferrei mais\u201d, relata a advogada.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Hist\u00f3rias de adolescentes e ex-adolescentes rebatem o r\u00f3tulo da rebeldia, e desvelam o que est\u00e1 por tr\u00e1s do inc\u00f4modo com a postura contestadora dos jovens\u00a0&#8211; por B\u00e1rbara Bigas\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2175\"> <\/a>","protected":false},"author":138,"featured_media":2182,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[688],"tags":[659,726,331,727,725],"class_list":["post-2175","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-babel-2025-ed-novembro","tag-adolescencia","tag-fase","tag-juventude","tag-rebeldia","tag-sociedade-comportamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma fase, m\u00e3e! 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