{"id":2077,"date":"2025-11-11T20:38:15","date_gmt":"2025-11-11T23:38:15","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2077"},"modified":"2025-11-18T20:03:29","modified_gmt":"2025-11-18T23:03:29","slug":"ta-todo-mundo-com-tdah","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2077","title":{"rendered":"T\u00e1 todo mundo com TDAH?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(Imagem: Montagem por Cec\u00edlia de O. Freitas)<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Pelos relatos e v\u00eddeos no TikTok, a conclus\u00e3o parece un\u00e2nime: provavelmente voc\u00ea tem TDAH. Mas ser\u00e1 que esse autodiagn\u00f3stico tem validade?<\/span><\/i><\/p>\n<p><b>Por <\/b>Mariana Rossi<\/p>\n<p>Vers\u00e3o em \u00e1udio:<\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: Audiodescri\u00e7\u00e3o - T\u00e1 todo mundo com TDAH?\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/3k4YlVVxu9mboV321OhbuA?si=dcae668042b74122&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAbaixe um dedo se voc\u00ea, frequentemente, entra em algum c\u00f4modo, mas ent\u00e3o esquece o que ia fazer. Abaixe um dedo se voc\u00ea j\u00e1 teve uma briga porque algu\u00e9m estava falando com voc\u00ea e voc\u00ea n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o. Abaixe um dedo se voc\u00ea tem alguma mania, como morder a unha ou mexer no cabelo. Ou ainda, abaixe um dedo se voc\u00ea se considera uma pessoa pregui\u00e7osa, mas hiperativa\u201d. E a\u00ed, quantos dedos voc\u00ea abaixou?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 preciso passar muito tempo rolando o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">feed<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> do TikTok para chegar em um conte\u00fado como esse: v\u00eddeos em que pessoas listam \u201csintomas\u201d para ajudar o usu\u00e1rio a descobrir se tem ou n\u00e3o o Transtorno do D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o com Hiperatividade, o famoso TDAH. Na plataforma, n\u00e3o faltam conte\u00fados sobre o transtorno, que viralizam r\u00e1pido. J\u00e1 s\u00e3o mais de 11,6 bilh\u00f5es de v\u00eddeos marcados com a hashtag #tdah. Na sigla em ingl\u00eas, #adhd, esse n\u00famero ultrapassa os 62,4 bilh\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se voc\u00ea j\u00e1 parou para realizar algum desses testes dos v\u00eddeos, \u00e9 prov\u00e1vel que tenha chegado a conclus\u00e3o de que voc\u00ea tem o transtorno <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> acertei? Na verdade, isso n\u00e3o acontece s\u00f3 com voc\u00ea, mas com muitas pessoas que assistem, como mostram as centenas de coment\u00e1rios desses posts. Falar mais sobre o transtorno e conscientizar as pessoas sobre ele traz mais visibilidade, mas ser\u00e1 que essa abund\u00e2ncia de conte\u00fados mais ajuda ou atrapalha? E afinal, ser\u00e1 que todo o pessoal que se identifica com os \u201csintomas\u201d e abaixa os dedos nos testes realmente tem TDAH?<\/span><\/p>\n<h2><b>Qual o meu diagn\u00f3stico?<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cMinha m\u00e3e diz que desde sempre sabia que eu tinha algo diferente. Desde a primeira inf\u00e2ncia, ela dizia que eu era hiperativa, tinha dificuldade para focar em qualquer coisa, uma baix\u00edssima toler\u00e2ncia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e era ansiosa\u201d, recorda a estudante Gabriela Labat. Na terapia desde os oito anos de idade, os pais de Gabriela j\u00e1 ouviram de profissionais para\u00a0 \u201clargarem a m\u00e3o\u201d da menina e deixarem a filha repetir de ano na escola para se \u201cendireitar\u201d. O diagn\u00f3stico de TDAH veio apenas anos depois, aos 13 anos, quando a escola em que estava matriculada pediu uma avalia\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica, caso contr\u00e1rio, ela seria convidada a se retirar do col\u00e9gio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gabriela levou anos para ser diagnosticada porque, ao contr\u00e1rio do que parece \u2013 ou do que o TikTok faz parecer ser \u2013, fechar um diagn\u00f3stico de TDAH n\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o simples. Os sintomas s\u00e3o bem conhecidos \u2013 e cotidianos, sendo justamente esse o desafio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Transtorno de desenvolvimento neurobiol\u00f3gico, o TDAH aparece na inf\u00e2ncia e, na maioria dos casos, acompanha o indiv\u00edduo na fase adulta. \u201cEm resumo, \u00e9 um transtorno de inquieta\u00e7\u00e3o mental, de impulsividade ou desaten\u00e7\u00e3o. Em 95% dos casos, para n\u00e3o dizer 100%, o TDAH resulta de predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica\u201d, explica o psic\u00f3logo Ronaldo Ramos, diretor da <\/span><a href=\"https:\/\/tdah.org.br\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de D\u00e9ficit de Aten\u00e7\u00e3o e Hiperatividade (ABDA)<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, organiza\u00e7\u00e3o que dissemina informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas sobre o transtorno para conscientizar a popula\u00e7\u00e3o e d\u00e1 suporte para pessoas com TDAH e familiares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No Manual de Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico de Transtornos Mentais V (DSM-V), uma esp\u00e9cie de \u201cb\u00edblia\u201d que guia os psiquiatras, s\u00e3o listados 18 sintomas para auxiliar no diagn\u00f3stico do TDAH. Estes <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbp\/a\/zsRj5Y4Ddgd4Bd95xBksFmc\/?format=html&amp;lang=pt\"><span style=\"font-weight: 400;\">sintomas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> est\u00e3o divididos entre nove indicadores para desaten\u00e7\u00e3o (como dificuldade de\u00a0 prestar aten\u00e7\u00e3o a detalhes e cometer erros por descuido nos trabalhos escolares, perder coisas necess\u00e1rias para tarefas e atividades ou ainda ser facilmente distra\u00eddo por est\u00edmulos alheios \u00e0 tarefa) e nove para hiperatividade e impulsividade (como falar excessivamente e frequentemente estar \u201cem movimento\u201d, agitando m\u00e3os, p\u00e9s ou se remexendo na cadeira).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 primeira vista, os sintomas parecem simples e corriqueiros, fazendo com que os testes difundidos no TikTok n\u00e3o pare\u00e7am de todo errados. S\u00f3 que se identificar com alguns itens da lista n\u00e3o \u00e9 suficiente para um diagn\u00f3stico. \u201c\u00c9 normal todos n\u00f3s termos esquecimentos, um certo grau de impulsividade e desaten\u00e7\u00e3o. S\u00e3o caracter\u00edsticas do ser humano. Esquecer o celular em casa n\u00e3o te faz uma pessoa com TDAH\u201d, explica Ramos. \u201cO que diferencia \u00e9 a intensidade com que isso ocorre. Aquilo acontece de forma t\u00e3o frequente que est\u00e1 sempre presente na vida da pessoa\u201d, continua o psic\u00f3logo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Jo\u00e3o Henrique Cartapatti, diagnosticado com TDAH aos 12 anos, entende bem isso. \u201cEu tinha uma dificuldade absurda de prestar aten\u00e7\u00e3o em qualquer coisa que eu n\u00e3o me interessasse. S\u00f3 que eu sei que todo mundo \u00e9 assim. Pra mim a diferen\u00e7a est\u00e1 na frequ\u00eancia com que acontece, al\u00e9m daquela dificuldade a mais de \u2018como eu n\u00e3o mudei isso ainda?\u2019, \u2018como que eu continuo fazendo isso?\u2019\u201d, explica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A verdade \u00e9 que n\u00e3o existe um teste \u00fanico para diagnosticar o transtorno. A investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo longo, com muitas etapas e detalhes, por isso \u00e9 necess\u00e1rio que seja feita por um profissional. O psic\u00f3logo, psiquiatra, neurologista ou o pediatra realiza question\u00e1rios e testes padronizados, al\u00e9m de entrevistas cl\u00ednicas com o paciente e com pessoas pr\u00f3ximas que convivem com a crian\u00e7a, como os pais e profissionais da escola.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m de um certo n\u00famero de sintomas e da frequ\u00eancia com que ocorrem, <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbp\/a\/zsRj5Y4Ddgd4Bd95xBksFmc\/?format=html&amp;lang=pt\"><span style=\"font-weight: 400;\">outros fatores<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> s\u00e3o importantes no diagn\u00f3stico, como entender h\u00e1 quantos meses o paciente convive com os sintomas, se eles come\u00e7aram antes dos 12 anos de idade e se est\u00e3o presentes em mais de um ambiente (como em casa e na escola). Tamb\u00e9m \u00e9 preciso um olhar treinado que considere o n\u00edvel de desenvolvimento natural da crian\u00e7a, afinal, sintomas de desaten\u00e7\u00e3o, de hiperatividade ou de impulsividade acontecem mesmo em crian\u00e7as t\u00edpicas, mas sem interfer\u00eancia na qualidade de vida.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A investiga\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m passa por um levantamento de casos na fam\u00edlia al\u00e9m do descarte de outros transtornos mentais, j\u00e1 que, muitas vezes, os sintomas podem estar associados a <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbp\/a\/zsRj5Y4Ddgd4Bd95xBksFmc\/?format=html&amp;lang=pt\"><span style=\"font-weight: 400;\">outros transtornos<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> como depress\u00e3o e ansiedade. Jo\u00e3o Cam\u00f5es, por exemplo, procurou terapia em 2021, quando tinha 15 anos, para tratar ansiedade e depress\u00e3o. \u201cEnquanto fazia o tratamento, a profissional que me acompanhava me sugeriu realizar testes dentro da psicoterapia e acabei diagnosticado com TDAH\u201d, relembra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os sintomas do TDAH tamb\u00e9m podem sofrer <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbp\/a\/zsRj5Y4Ddgd4Bd95xBksFmc\/?format=html&amp;lang=pt\"><span style=\"font-weight: 400;\">varia\u00e7\u00f5es<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> ao longo do tempo, j\u00e1 que sintomas da hiperatividade diminuem durante a adolesc\u00eancia e vida adulta, enquanto os sintomas de desaten\u00e7\u00e3o e impulsividade ganham for\u00e7a. \u201cNo decorrer do tempo, o TDAH muda. Na crian\u00e7a, no adolescente, na idade adulta. Muda o cen\u00e1rio, mas os sinais s\u00e3o vis\u00edveis\u201d, conclui Ramos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 deu para ver que, pela complexidade, n\u00e3o \u00e9 um v\u00eddeo em redes sociais que ser\u00e1 capaz de fechar um diagn\u00f3stico, e que o autodiagn\u00f3stico \u00e9 um problema a ser enfrentado. S\u00f3 que, de fato, o n\u00famero de casos de TDAH no mundo vem aumentando \u2013 e a culpa n\u00e3o \u00e9 do autodiagn\u00f3stico. Ent\u00e3o, de quem \u00e9?<\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JzD72a6k2zU?si=AU4E_Eih2hPKd3Y6\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<h2><b>O boom de TDAH<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se em 1997 o TDAH <\/span><a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC6324288\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">atingia 6,1%<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> das crian\u00e7as e adolescentes nos Estados Unidos, em 2015 o \u00edndice passou para 10,2%. Mais recentemente, em 2022, os Centros Americanos de Controle e Preven\u00e7\u00e3o de Doen\u00e7as atualizaram o dado, que agora est\u00e1 em 11,4%. Embora os dados se refiram aos EUA, a tend\u00eancia de aumento no n\u00famero de casos \u00e9 global. Nos anos 2000, a preval\u00eancia do transtorno no mundo era de <\/span><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbp\/a\/zsRj5Y4Ddgd4Bd95xBksFmc\/?format=html&amp;lang=pt\"><span style=\"font-weight: 400;\">3% a 6%<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, enquanto uma estimativa de 2022 atualizou esse n\u00famero para <\/span><a href=\"https:\/\/www.msdmanuals.com\/pt\/profissional\/pediatria\/dist%C3%BArbios-de-aprendizagem-e-desenvolvimento\/transtorno-de-deficit-de-aten%C3%A7%C3%A3o-hiperatividade-tdah?ruleredirectid=762mredirectid=3467\"><span style=\"font-weight: 400;\">5% a 8%<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> da popula\u00e7\u00e3o mundial. No Brasil, a estimativa da ABDA \u00e9 que cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas s\u00e3o afetadas pelo transtorno.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para Ronaldo Ramos, o aumento \u00e9 explicado por fatores como o maior conhecimento sobre o transtorno por parte dos psiquiatras e psic\u00f3logos, que fecham diagn\u00f3sticos, e pela possibilidade de um paciente apresentar mais de um transtorno, como TDAH e autismo. Al\u00e9m disso, a presen\u00e7a de orientadores educacionais nas escolas, que fazem a leitura do comportamento dos estudantes e encaminham para profissionais, tamb\u00e9m ajuda a revelar mais casos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o pela popula\u00e7\u00e3o, mesmo que nem sempre de qualidade, tamb\u00e9m \u00e9 uma respons\u00e1vel direta por esse aumento. Nesse movimento, n\u00e3o s\u00f3 os pais percebem e identificam comportamentos nas crian\u00e7as como tamb\u00e9m adultos procuram diagn\u00f3stico tardio, principalmente <\/span><a href=\"https:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1983-34822020000300007#:~:text=No%20tocante%20a%20preval%C3%AAncia%20do,Bourke%20%26%20Ansell%2C%202014\"><span style=\"font-weight: 400;\">mulheres<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O aumento de casos, no entanto, n\u00e3o pode ser explicado pelo modo de vida atual, mediado pelo uso excessivo de telas e pela cobran\u00e7a de produtividade e desempenho. Pelo menos, \u00e9 isso o que a ci\u00eancia tem demonstrado no momento. As demandas e os est\u00edmulos intensos podem at\u00e9 simular sintomas de TDAH, como redu\u00e7\u00e3o de tempo de aten\u00e7\u00e3o sustentada e aumento de comportamentos impulsivos, mas n\u00e3o \u201ccriam\u201d o TDAH, j\u00e1 que ele tem bases gen\u00e9ticas. Para quem j\u00e1 convive com o diagn\u00f3stico, o uso intenso da tecnologia pode <\/span><a href=\"https:\/\/bjihs.emnuvens.com.br\/bjihs\/article\/view\/3202\"><span style=\"font-weight: 400;\">intensificar<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> os sintomas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O uso moderado das redes sociais, assim como exerc\u00edcios f\u00edsicos e a organiza\u00e7\u00e3o da rotina s\u00e3o algumas recomenda\u00e7\u00f5es complementares ao tratamento do TDAH, que \u00e9 baseado principalmente na medica\u00e7\u00e3o, na psicoterapia e na informa\u00e7\u00e3o adequada sobre o transtorno n\u00e3o somente para as pessoas com TDAH, mas tamb\u00e9m para a fam\u00edlia e para a escola, o que inclui professores, alunos e funcion\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<h2><b>\u201cA escola foi o maior trauma da minha vida\u201d<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ainda crian\u00e7a, Gabriela se recusava a fazer li\u00e7\u00f5es de casa e algumas atividades em sala e contrariava os professores. Era comum pedir pra sair da sala para dar uma volta, conversar bastante e querer andar pela sala de aula, sendo sempre restringida. Ao mesmo tempo em que era criativa e querida pelas pessoas, ela sentia que n\u00e3o se encaixava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 medida que foi crescendo, as mat\u00e9rias foram ficando complexas, e essa hiperatividade e criatividade se transformaram em ansiedade. Muitas vezes, ela chorava implorando para a m\u00e3e para faltar na escola. \u201cPeguei recupera\u00e7\u00e3o pela primeira vez no 5\u00b0 ano do ensino fundamental. Eu tinha dez anos, e era certo que, dali em diante, todo ano eu pegaria recupera\u00e7\u00e3o de matem\u00e1tica, geografia e ingl\u00eas\u201d, conta Gabriela. No 8\u00b0 ano veio o diagn\u00f3stico de TDAH, e tamb\u00e9m a repet\u00eancia na escola. \u201cE a\u00ed as coisas ficaram piores\u201d, lembra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A maior parte dos diagn\u00f3sticos de TDAH ocorrem em idade escolar. Para Ronaldo Ramos, o problema n\u00e3o \u00e9 a escola em si, mas o sistema em que as escolas trabalham at\u00e9 hoje, a educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria \u2013 aquela aula com um professor na frente falando, sem espa\u00e7o para di\u00e1logo, sem atividades pr\u00e1ticas e que exige do aluno apenas memorizar. Voc\u00ea que ainda est\u00e1 na escola sabe bem como \u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA desaten\u00e7\u00e3o que a pessoa com TDAH tem prejudica a memoriza\u00e7\u00e3o, porque ela n\u00e3o tem foco sustentado na sala de aula\u201d, explica o psic\u00f3logo. \u201cEnt\u00e3o na prova a pessoa erra sinais de matem\u00e1tica, esquece fatos hist\u00f3ricos\u201d. O resultado: notas baixas e o fracasso escolar. \u201cN\u00e3o \u00e9 a escola que traz o TDAH. \u00c9 o nosso tipo de cobran\u00e7a de estudo, da educa\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria\u201d, resume.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gabriela viveu isso na pele. Do 8\u00b0 ano at\u00e9 o 3\u00b0 colegial, foi levando os estudos do jeito que conseguia. Ia mal, ficava de recupera\u00e7\u00e3o e precisava de d\u00e9cimos do Conselho de Classe para avan\u00e7ar. Junto com o TDAH veio tamb\u00e9m a depress\u00e3o. \u201cTentaram me reprovar, mas minha m\u00e3e fez muita press\u00e3o no col\u00e9gio. Ela queria denunciar eles, pois s\u00f3 o diagn\u00f3stico do TDAH em si j\u00e1 me concedia alguns direitos, e al\u00e9m disso eu tinha laudo psiqui\u00e1trico de toda a minha situa\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, quiseram me reter, mas acabaram me passando, provavelmente, por medo da den\u00fancia\u201d, relata.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma situa\u00e7\u00e3o da \u00e9poca de escola marcou Gabriela. Aos dez anos, sentia muita dificuldade de aprender os pa\u00edses, estados e capitais. \u201cEu tinha muita dificuldade, n\u00e3o conseguia decorar e me confundia toda\u201d, lembra. Eis que, como conta Gabriela, a professora resolveu coloc\u00e1-la no fundo da sala em uma mesa virada para a parede para a menina fazer uma atividade diferente das dos demais colegas. \u201cIsso fez eu me sentir muito mal, me sentir burra e \u00e0 parte do resto da sala\u201d, desabafa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cJ\u00e1 passei por muitas situa\u00e7\u00f5es chatas no ambiente escolar. N\u00e3o acho que tenha uma espec\u00edfica que resuma tudo, mas basicamente a escola foi o maior trauma da minha vida. Tenho diversos problemas psicol\u00f3gicos por conta da exclus\u00e3o, do julgamento, da falta de amparo, falta de conhecimento da escola e dos professores\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO TDAH acaba associado \u00e0 estigmas. Uma pessoa com o transtorno frequentemente \u00e9 vista como uma pessoa pregui\u00e7osa ou menos capaz, menos inteligente. Mas isso vai completamente contra o que se mostra nas evid\u00eancias cient\u00edficas. Pessoas com TDAH tendem a ter uma intelig\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 diferente da m\u00e9dia das outras pessoas\u201d, esclarece Gustavo Estanislau, psiquiatra da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia e membro do Instituto Ame Sua Mente, organiza\u00e7\u00e3o que desenvolve capacita\u00e7\u00f5es em sa\u00fade mental para educadores, principalmente de escolas p\u00fablicas, para modificar realidades como a vivida por Gabriela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De acordo com Estanislau, pessoas com TDAH tendem a ser, desde pequenas, tratadas com disciplina negativa. \u201cH\u00e1 muita cr\u00edtica e pouco refor\u00e7o positivo. Isso afeta a autoestima da crian\u00e7a e a percep\u00e7\u00e3o que ela tem dela mesma como estudante, o que pode levar a quadros depressivos. Por isso, \u00e9 fundamental disseminar conhecimentos em sa\u00fade mental nas escolas\u201d, completa o psiquiatra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para al\u00e9m do maior conhecimento sobre o transtorno por parte dos professores e de toda a comunidade escolar, Estanislau tamb\u00e9m destaca estrat\u00e9gias pedag\u00f3gicas discutidas por pesquisadores que podem ajudar a pessoa com TDAH a viver melhor o dia a dia na escola. Um exemplo \u00e9 realizar atividades mais interativas e voltadas \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o de problemas, j\u00e1 que elas tendem a ser mais estimulantes para alunos com o transtorno. Nas li\u00e7\u00f5es, instru\u00e7\u00f5es mais curtas, a segmenta\u00e7\u00e3o de tarefas e iniciar pelas atividades mais simples s\u00e3o medidas recomendadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ajuste do ambiente, reduzindo distra\u00e7\u00f5es visuais e sonoras e sentando na primeira fileira, tamb\u00e9m s\u00e3o importantes, assim como uma rotina previs\u00edvel em sala de aula, com agenda vis\u00edvel, avisos antecipados e transi\u00e7\u00e3o clara entre as aulas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O tempo extra para realizar uma prova \u00e9 uma das poucas medidas que j\u00e1 s\u00e3o implementadas mais amplamente. Do outro lado, ainda h\u00e1 quest\u00f5es pol\u00eamicas, como permitir que a crian\u00e7a possa se movimentar na cadeira, assim como que ela possa fazer pausas ou sair da sala de aula de tempos em tempos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para o psiquiatra, \u00e9 fundamental o treinamento dos professores. \u201cN\u00e3o \u00e9 que o professor tenha que saber identificar um aluno com TDAH, mas \u00e9 interessante que ele conhe\u00e7a algumas dessas estrat\u00e9gias que respeitam as caracter\u00edsticas do transtorno, como a dificuldade na manuten\u00e7\u00e3o do foco e na tend\u00eancia ao t\u00e9dio. Assim a crian\u00e7a pode performar mais pr\u00f3ximo do potencial dela\u201d, defende Gustavo Estanislau.<\/span><\/p>\n<h2><b>Cen\u00e1rio melhor\u00a0<\/b><\/h2>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje, Gabriela tem 24 anos. Todas as dificuldades que ela passou na escola e resist\u00eancia de professores e de colegas com o diagn\u00f3stico dela s\u00e3o experi\u00eancias de meados da d\u00e9cada de 2010. Na \u00e9poca, algumas mudan\u00e7as para apoiar pessoas com TDAH na escola come\u00e7avam a ser implementadas, como mudan\u00e7as na prova e maior tempo para execut\u00e1-la, mas essas medidas ainda n\u00e3o eram realizadas de forma adequada. \u201cEu tinha um tempo a mais, mas n\u00e3o dava certo porque as demais pessoas da sala acabavam a prova e ficavam conversando, e o tempo a mais n\u00e3o era suficiente. Acho que a inten\u00e7\u00e3o da escola era boa, mas a execu\u00e7\u00e3o precisava de algu\u00e9m mais especializado e apto a modificar a prova do jeito correto\u201d, opina Gabriela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos \u00faltimos anos, a maior compreens\u00e3o da ci\u00eancia a respeito do TDAH, o diagn\u00f3stico e tratamento corretos aplicados mais rapidamente, assim como o maior conhecimento da popula\u00e7\u00e3o sobre o transtorno \u2013 entre outros meios, via internet \u2013 parecem estar mudando o cen\u00e1rio de dificuldades dos alunos na escola e em casa. Pessoas com o transtorno, inclusive, encontram maior apoio jur\u00eddico. Em 2021, por exemplo, uma <\/span><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2021\/lei\/L14254.htm#:~:text=LEI%20N%C2%BA%2014.254%2C%20DE%2030,ou%20outro%20transtorno%20de%20aprendizagem.\"><span style=\"font-weight: 400;\">lei<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> que assegura o acompanhamento de alunos com TDAH na escola foi sancionada. Mas h\u00e1 muito a ser feito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cAinda h\u00e1 resist\u00eancia de se falar sobre assuntos de sa\u00fade mental dentro das escolas, al\u00e9m da dificuldade de se disseminar informa\u00e7\u00f5es embasadas em evid\u00eancias cient\u00edficas em larga escala para os professores, por conta da sobrecarga de trabalho a esses profissionais\u201d, comenta Estanislau.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu sinto que as escolas hoje est\u00e3o mais preparadas, mais receptivas. Est\u00e3o realmente tentando\u201d, opina Gabriela, \u201cacho que melhorou porque tem muita informa\u00e7\u00e3o hoje em dia\u201d. Pensando no p\u00fablico jovem, as redes sociais s\u00e3o o principal meio em que esse p\u00fablico vai buscar informa\u00e7\u00f5es sobre sa\u00fade mental. Nesse meio, o TikTok, recheado de v\u00eddeos de testes (como o que abre esse texto), t\u00e9cnicas para lidar com os sintomas, promessas de \u201ccura\u201d e relatos de experi\u00eancias pessoais sobre o TDAH, se destaca. Mas \u00e9 preciso abrir o olho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em 2022, um<\/span><a href=\"https:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/pii\/S266656032500101X\"><span style=\"font-weight: 400;\"> estudo<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> fez uma an\u00e1lise dos 100 v\u00eddeos mais populares do TikTok sobre TDAH. O resultado mostrou que metade do conte\u00fado n\u00e3o tinha base cient\u00edfica e continha informa\u00e7\u00f5es falsas. Nesta situa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 quem veja esses conte\u00fados na internet como aliados e outros como desservi\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu n\u00e3o gosto desses conte\u00fados. Tem muita gente boa, tem. M\u00e9dicos bons, pessoas que falam coisas \u00fateis, mas infelizmente a maioria dos que eu vejo \u00e9 um neg\u00f3cio que s\u00f3 corrobora o sentimento de que todo mundo tem o transtorno. N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o tem TDAH. Vai fazer um exame primeiro\u201d, comenta Jo\u00e3o Henrique. Na mesma linha, est\u00e1 Jo\u00e3o Cam\u00f5es: \u201cEu tenho muitas ressalvas. Produzir conte\u00fado que conscientize \u00e9 muito importante&#8230; Mas o transtorno se tornou algo extremamente banalizado e utilizado como adjetivo que n\u00e3o reflete a realidade. \u00c9 de um extremo mal gosto usar de algo que prejudica tanto o lado cognitivo de uma pessoa como \u2018modinha\u2019\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Gabriela pensa diferente. \u201cAcho que esses conte\u00fados refletem mais positivamente do que negativamente, porque, mesmo que nem todas essas pessoas tenham TDAH, com a internet, elas sabem mais sobre o transtorno. Muita gente \u00e9 diagnosticada adulta e at\u00e9 ent\u00e3o passou a vida toda com quest\u00f5es e n\u00e3o sabia\u201d, reflete a estudante. \u201cDo ponto de vista democr\u00e1tico, o que se fala ali pode ser positivo ou negativo\u201d, resume Ramos, \u201ctem v\u00eddeo com fala coerente, adequada, ao mesmo tempo que tem gente que fala que o TDAH n\u00e3o existe, que \u00e9 uma forma da ind\u00fastria farmac\u00eautica vender rem\u00e9dios. Outros falam que com um exerc\u00edcio voc\u00ea pode se curar do TDAH\u2026 A parte complicada s\u00e3o as pessoas que n\u00e3o tem conhecimento e criam m\u00e9todos pr\u00f3prios. Mas n\u00e3o pode desconsiderar tamb\u00e9m a parte boa\u201d.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pelos relatos e v\u00eddeos no TikTok, a conclus\u00e3o parece un\u00e2nime: provavelmente voc\u00ea tem TDAH. 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