{"id":2061,"date":"2025-06-24T00:10:14","date_gmt":"2025-06-24T03:10:14","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2061"},"modified":"2025-08-05T17:16:53","modified_gmt":"2025-08-05T20:16:53","slug":"monges-templos-e-doze-tribos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2061","title":{"rendered":"Monges, templos e doze tribos"},"content":{"rendered":"<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Conhecendo as pessoas religiosas que escolhem uma vida offline<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Por<\/strong> Paloma Lazzaro Saliba\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 uma incongru\u00eancia est\u00e9tica entre a tecnologia digital e o mundo religioso, apesar de a internet ser atualmente um grande meio de convers\u00e3o para novatos e espa\u00e7o de adora\u00e7\u00e3o prosaica para fi\u00e9is de longa data. \u00c9 uma imagem engra\u00e7ada a dos monges do Mosteiro de S\u00e3o Bento encapuzados assistindo animes no Crunchyroll e s\u00e9ries da HBO em seus IPads, o que n\u00e3o faz dela menos verdadeira. Em religiosidades n\u00e3o-crist\u00e3s houve um grau semelhante de percola\u00e7\u00e3o do mundo digital. Rabinos da Sinagoga Hissachdus Kehilois Hayereim Ratzfert mant\u00e9m grupos de WhatsApp com fi\u00e9is ortodoxos, exceto no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Shabat<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. A monja Coen e seus companheiros do Templo Taikozan Tenzuizenji t\u00eam perfis no Instagram e fazem v\u00eddeos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Encontrar pessoas de f\u00e9 que t\u00eam o uso reduzido, ou nulo, da internet \u00e9 dif\u00edcil, mas n\u00e3o imposs\u00edvel. Existem contextos opressivos, onde autoridades religiosas cortam o contato de fi\u00e9is com conhecidos, <\/span><a href=\"https:\/\/www.prt2.mpt.mp.br\/542-igreja-e-processada-por-exploracao-de-mao-de-obra-de-fieis\"><span style=\"font-weight: 400;\">algumas at\u00e9 mesmo denunciadas \u00e0 pol\u00edcia<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Existem tamb\u00e9m as pessoas religiosas que fazem essa escolha, por vezes sozinhas, outras vezes coletivamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A senhora Teryo Nakano \u00e9 uma fiel que vai todas as sextas feiras de manh\u00e3 trocar as flores na Catedral Budista Nikkyoji. \u201cO templo eu coloco sempre em primeiro lugar. Se eu tenho alguma atividade no templo e outra em outro lugar, eu dou prioridade para o templo. Porque foram tantas b\u00ean\u00e7\u00e3os que eu recebi, ent\u00e3o n\u00e3o tem como desviar esse caminho. A gente tem que fazer tudo assim de cora\u00e7\u00e3o limpo e poder ajudar os outros. Esse \u00e9 o pensamento meu\u201d.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_2063\" aria-describedby=\"caption-attachment-2063\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2063\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot_20250707_172136_Drive-300x222.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"222\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot_20250707_172136_Drive-300x222.jpg 300w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot_20250707_172136_Drive-1037x768.jpg 1037w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot_20250707_172136_Drive-768x569.jpg 768w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Screenshot_20250707_172136_Drive.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-2063\" class=\"wp-caption-text\">Homem com s\u00edmbolos budistas &#8211; flor de lotus e ohm &#8211; em suas m\u00e3os (Imagem: Paloma Saliba)<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ela gosta de olhar a sala central da catedral enquanto fala baixo e manso, com um leve sotaque japon\u00eas comumente ouvido na Zona Sul de S\u00e3o Paulo. Parece admirada e feliz com o espa\u00e7o. A catedral em si, no Ipiranga, existe h\u00e1 mais de 60 anos, por\u00e9m tem sido reformada e expandida no \u00faltimo ano. Na manh\u00e3 da sexta-feira, o sil\u00eancio da troca de flores no sal\u00e3o contrasta com o vai e vem de pedreiros nas \u00e1reas externas e no pr\u00e9dio da administra\u00e7\u00e3o. M\u00eas passado, conta Teryo, o templo foi reinaugurado. Ela ficou na cozinha, preparando 1500 marmitas para todas as pessoas que vieram auxiliar na reforma. Quando saiu de perto das panelas e potinhos, se espantou ao ver que o sal\u00e3o central tinha ficado pronto em apenas duas horas. \u201cTem essa uni\u00e3o por um objetivo comum. \u00c9 muita gente que tem uma colabora\u00e7\u00e3o sem ser obrigada, mas apenas por ajudar mesmo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde que nasceu 78 anos atr\u00e1s em Mogi das Cruzes pratica o budismo, que era majorit\u00e1rio na regi\u00e3o devido \u00e0 presen\u00e7a japonesa. Hoje em dia, mora na regi\u00e3o de S\u00e3o Judas e mant\u00e9m sua rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com a f\u00e9. \u201cTendo a f\u00e9, voc\u00ea consegue fazer tudo. A\u00ed vejo que vem chegando gente nova, devagarinho na primeira vez. Tem que acolher aquela pessoa, porque n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que est\u00e1 vindo no templo. \u00c9 em busca de paz. Eu encaro assim, pode ser qualquer pessoa, a gente n\u00e3o pode ver se \u00e9 japon\u00eas, branco, negro, sabe? N\u00e3o pode ver esse lado. Tem que acolher de qualquer forma. Essa parte a gente enfatiza muito nas prega\u00e7\u00f5es, em tudo que o sacerdote faz. Com isso a gente recebe in\u00fameras b\u00ean\u00e7\u00e3os\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sua rela\u00e7\u00e3o com a tecnologia n\u00e3o \u00e9 antag\u00f4nica, apesar de fazer pouco uso dela. Teryo fez, no passado, um curso de inform\u00e1tica junto com seus meninos, devido \u00e0 necessidade do uso de tecnologias digitais no seu antigo trabalho formal. Foi dif\u00edcil, afinal tudo era muito novo e a internet ainda n\u00e3o havia sido canonizada no cotidiano brasileiro. Conseguiu pegar o jeito, mas hoje em dia leva uma vida predominantemente offline por falta de tempo, al\u00e9m de n\u00e3o ter prazer em entrar na internet. \u00c0s vezes, gosta de \u201cjogar um joguinho e estudar na internet. Tem um link do templo de manh\u00e3 e \u00e0 noite com a ora\u00e7\u00e3o que est\u00e3o fazendo, eu acesso se n\u00e3o consigo vir aqui\u201d. O uso excessivo de celulares e internet \u00e9 algo que preocupa muitos religiosos, acad\u00eamicos, pol\u00edticos, m\u00e3es, pais, educadores. \u201cNa adolesc\u00eancia voc\u00ea tem que p\u00f4r limite, n\u00e9? Na idade adulta, eu acho que cada um sabe o seu limite, tem que saber. Depois dos 25 anos, voc\u00ea j\u00e1 tem sua personalidade feita\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao fim da conversa central, ela mostra orgulhosa o columb\u00e1rio, sala onde as cinzas dos mortos s\u00e3o guardadas e homenageadas com ora\u00e7\u00f5es e s\u00edmbolos sagrados. As almas de todos eles t\u00eam que ser honradas e lembradas, pois s\u00e3o vivas mesmo ap\u00f3s o fim dessa exist\u00eancia corporal. Todas as pessoas que cruzam o caminho da senhora no templo a cumprimentam. Um sacerdote \u00e9 visto indo visitar as casas de fi\u00e9is, para b\u00ean\u00e7\u00e3os e ora\u00e7\u00f5es. Teryo, no caminho de volta ao sal\u00e3o central, conta que as fam\u00edlias dos monges moram com eles no pr\u00e9dio lateral e mais moderno da propriedade. Ela volta a organizar silenciosamente os \u00faltimos arranjos florais de margaridas amarelas, rosadas e brancas, mantendo o padr\u00e3o que j\u00e1 havia feito com os outros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Mosteiro Suddhavari tamb\u00e9m \u00e9 budista, por\u00e9m, os morros verdejantes do sul de Minas Gerais s\u00e3o um cen\u00e1rio diferente das ruas lotadas por casas antigas e pr\u00e9dios modernos do Ipiranga. H\u00e1 tamb\u00e9m uma diferen\u00e7a na linha religiosa seguida entre os templos: o Nikkyoji \u00e9 Honmon Butsuryu-Shu, de origem japonesa e parte tradi\u00e7\u00e3o Mahayana; o Suddhavari segue a pr\u00e1tica Wat Pah Pong, tailandesa e parte da tradi\u00e7\u00e3o Theravada. Nele, a vida dos monges \u00e9 integralmente offline durante os primeiros anos de vida mon\u00e1stica, assim como a de fi\u00e9is que v\u00e3o ao local fazer retiros. Outra diferen\u00e7a, muito mais antiga, \u00e9 o fato de que monges Theravada cumprem celibato.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ajahn Mudito \u00e9 atualmente o abade do Mosteiro, motivo pelo qual \u00e9 uma das \u00fanicas pessoas l\u00e1 que tem contato com o mundo digital. Devido \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a, o uso dessas ferramentas \u00e9 necess\u00e1rio para a organiza\u00e7\u00e3o de atividades, a divulga\u00e7\u00e3o de material e a comunica\u00e7\u00e3o em geral. Aos 25 anos de idade, em 2002, ele se tornou monge na Tail\u00e2ndia e permaneceu como monge sem acesso \u00e0 tecnologia digital por 15 anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu j\u00e1 tinha uma certa intui\u00e7\u00e3o de que estava faltando algo, a conta n\u00e3o fechava. Quando eu olhava para a sociedade, para as pessoas, a mat\u00e9ria e como se deve encontrar a felicidade na vida. Eu tinha essa intui\u00e7\u00e3o, \u2018isso n\u00e3o vai dar certo\u2019. Ainda assim, eu fiz, n\u00e9. As pessoas em cima \u2018voc\u00ea a ganhar dinheiro, arrumar namorada, o amor da sua vida e vai ser feliz\u2019. Ent\u00e3o, fiz essas coisas todas, inclusive a namorada. Mas quanto mais eu fazia isso, mais eu via o quanto era vazio, que isso \u00e9 s\u00f3 uma uma miragem, por tr\u00e1s, n\u00e3o tem nada\u201d. Quando terminou a faculdade, j\u00e1 tinha dinheiro guardado do seu emprego e da venda de seu carro e apartamento, o suficiente para viajar por um ano por v\u00e1rios pa\u00edses. O destino final de Mudito foi a Tail\u00e2ndia, onde a visita de uma semana a um mosteiro se estendeu indefinidamente e ele nunca mais voltou para casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O cotidiano dos monges no Suddhavari tem in\u00edcio na madrugada, enquanto os vales entre morros est\u00e3o cobertos por nuvens fofas de orvalho e o c\u00e9u est\u00e1 preto. \u00c0s 4:30, j\u00e1 tem uma reuni\u00e3o onde repassam textos budistas e fazem medita\u00e7\u00e3o em grupo. 6:00 \u00e9 o caf\u00e9 da manh\u00e3 e entre as 7:30 e 10:00 s\u00e3o feitos trabalhos no mosteiro, como limpeza, manuten\u00e7\u00e3o ou constru\u00e7\u00e3o. Toda a comida consumida por eles deve ser dada como esmola, devido a uma regra da tradi\u00e7\u00e3o religiosa, ent\u00e3o a partir das 10:00 os monges saem e v\u00e3o pedir esmola \u00e0s pessoas da regi\u00e3o, pelas ruas j\u00e1 ensolaradas e a sem neblina crepuscular. Na parte da tarde, o tempo \u00e9 livre para reclus\u00e3o: caminhada, estudo, leitura, medita\u00e7\u00e3o. Quem se torna monge faz mais de um ano de retiro, para ter certeza de que isso \u00e9 o que quer, que \u00e9 capaz de conviver com os pares e que consegue aguentar as priva\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A estrat\u00e9gia mon\u00e1stica Theravada \u00e9 cortar o m\u00e1ximo poss\u00edvel as formas de prazer sensorial. \u201cComo a mente ainda precisa de felicidade para sobreviver, tem uma urg\u00eancia maior em conquistar a mente feliz e pac\u00edfica. Ao impedir o acesso ao local onde ela buscava o prazer, a mente vai precisar aprender um novo tipo de bem-estar, um novo tipo de felicidade que independe do mundo ao redor. \u00c9 importante aprender a viver consigo mesmo e entender sua pr\u00f3pria mente\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mudito fala com todas as marcas de algu\u00e9m que viveu uma juventude paulistana, com algumas g\u00edrias e refer\u00eancias culturais do per\u00edodo efervescente do final da d\u00e9cada de 1990 e in\u00edcio do novo mil\u00eanio. Esse tom despojado pode levar algu\u00e9m a n\u00e3o entender a profundidade e rigor da vida que ele descreve e tentar infantilmente imitar um monge. \u201cO celular \u00e9 uma ferramenta fant\u00e1stica. O problema n\u00e3o \u00e9 conectar ou desconectar. Mas as pessoas n\u00e3o t\u00eam bem-estar, n\u00e3o t\u00eam felicidade. Ent\u00e3o elas procuram no online distra\u00e7\u00e3o das suas pr\u00f3prias vidas, para abafar o sofrimento. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o acho saud\u00e1vel ficar muito, sei l\u00e1, estranho ao seu pr\u00f3prio mundo, tem que respeitar o ambiente que voc\u00ea vive\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cO tal \u2018segredo\u2019para n\u00e3o se viciar em celular \u00e9 ter uma vida plena, porque ele n\u00e3o \u00e9 uma droga de fato como um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">fentanil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, tem como evitar v\u00edcio. Ter contato com a natureza, passear, fazer exerc\u00edcio. O problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o t\u00eam vida, a\u00ed elas vivem atrav\u00e9s do celular. Se a sua vida n\u00e3o \u00e9 boa, voc\u00ea vai querer viver a vida dos outros, dispon\u00edvel 24 horas por dia, mano. \u00c9 algo realmente in\u00e9dito na ra\u00e7a humana, quando eu voltei a usar parecia fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mas ainda pode ter um ponto m\u00e9dio, usar eficientemente\u201d \u00e9 a s\u00edntese que Mudito elabora.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em outra regi\u00e3o serrana do Sudeste, Itapecerica da Serra, h\u00e1 a comunidade Doze Tribos. Ela \u00e9 parte de um grupo fundamentalista crist\u00e3o, no sentido literal da palavra, fundado no Tennessee na d\u00e9cada de 1970. No Brasil, al\u00e9m do cl\u00e3 localizado na zona metropolitana de S\u00e3o Paulo, eles t\u00eam outros dois grandes agrupamentos no Paran\u00e1, em Campo Largo e em Londrina. As comunidades do pa\u00eds, juntas, formam a Tribo de Naftali. Em uma das mesas-cabine de madeira escura do Yellow Deli, restaurante do qual eles s\u00e3o propriet\u00e1rios e que serve como fonte de renda para as comunidades, Lev Nadab e Bekor explicam seu estilo de vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cA coluna dorsal da nossa vida s\u00e3o as escrituras da B\u00edblia. N\u00f3s n\u00e3o nos entendemos como uma religi\u00e3o, uma igreja em que frequentamos, mas n\u00f3s somos um povo e a nossa constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 a B\u00edblia. A vida dos primeiros disc\u00edpulos de Jesus era uma vida em comunidade e o resultado da vinda dele, do sacrif\u00edcio dele, sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o foi um povo que vivia em comunidade. E a nossa vida \u00e9 assim, \u00e9 literalmente, n\u00e9? Deixamos toda a nossa vida ordin\u00e1ria para tr\u00e1s e estamos construindo essa vida juntos\u201d, Bekor diz de forma s\u00e9ria, por\u00e9m com um tom que se assemelha ao de um professor universit\u00e1rio descolado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na resid\u00eancia coletiva das Doze Tribos, todos acordam cedo para participar da reuni\u00e3o de adora\u00e7\u00e3o a Deus, que ocorre \u00e0s 7:00. \u00c9 um momento devocional que se repete 12 horas depois, ambos com canto, dan\u00e7a e compartilhamento da f\u00e9. O resto do dia \u00e9 dedicado \u00e0s tarefas de cada membro da comunidade, que varia entre trabalho dom\u00e9stico, agricultura, com\u00e9rcio, panifica\u00e7\u00e3o, atendimento no Yellow Deli e educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, feita em modelo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">homeschooling<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Todas as refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o feitas coletivamente no refeit\u00f3rio, partindo o p\u00e3o juntos como os disc\u00edpulos de Jesus. Ningu\u00e9m tem um \u201cemprego pessoal, fora da comunidade\u201d e a forma\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as visa manter o c\u00f3digo moral e os costumes da comunidade, al\u00e9m de atender o curr\u00edculo do MEC, obrigat\u00f3rio por lei.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cNossa vida \u00e9 b\u00edblica. \u00c9 como diz em Romanos 12:1-2, oferecemos nossos corpos vivos, como sacrif\u00edcio vivo. \u00c9 o que n\u00f3s somos. Hoje voc\u00ea n\u00e3o faz um sacrif\u00edcio de verdade, tipo, voc\u00ea n\u00e3o vai matar algu\u00e9m. Mas oferece quem eu sou, minha for\u00e7a para Ele. Ent\u00e3o n\u00f3s fazemos isso diariamente. Ele usa a palavra religi\u00e3o, a nossa religi\u00e3o \u00e9 cuidar de vi\u00favas e \u00f3rf\u00e3os\u201d. As pessoas das Doze Tribos citam versos b\u00edblicos de mem\u00f3ria frequentemente, mas Lev Nadab tem ainda mais afinidade com o discurso teol\u00f3gico do que a maioria. Ele gosta de explicar as origens de palavras e seu significado para seu povo. O que \u00e9 impressionante uma vez que o portugu\u00eas n\u00e3o \u00e9 sua l\u00edngua materna, mas sim o ingl\u00eas e os dialetos da ilha caribenha de Granada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A internet est\u00e1 longe do cotidiano da maioria dessas pessoas, Bekor \u00e9 um dos poucos que faz uso corrente dela, devido \u00e0 sua fun\u00e7\u00e3o de comerciante. Essa vis\u00e3o puramente utilit\u00e1ria da tecnologia \u00e9 explicitada por Lev Nadab. \u201cTelefone \u00e9 uma ferramenta, um computador, uma ferramenta. Igual um martelo, parafusadeira, ent\u00e3o \u00e9 uma ferramenta dele [Bekor] para trabalhar. Tudo depende do seu trabalho no dia a dia. Um padeiro, algu\u00e9m que trabalha na horta, n\u00e3o precisa desta ferramenta, n\u00e3o usa. E n\u00e3o faz falta, que nossa vida \u00e9 muito da comunica\u00e7\u00e3o. A gente cr\u00ea bastante na cultura oral\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 um computador comunit\u00e1rio no escrit\u00f3rio da resid\u00eancia deles, voltado \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o com parentes e amigos externos por meio de um Whatsapp Web comunal. \u201cTodos t\u00eam acesso. N\u00e3o \u00e9 uma coisa que \u00e9 estrita, proibida, sabe? Mas uma op\u00e7\u00e3o pessoal de cada um. Quem aderiu a essa vida tinha esse desejo de viver uma vida mais real e deixar a vida virtual de lado\u201d, Bekor detalha, para que a quest\u00e3o da funcionalidade da tecnologia n\u00e3o pare\u00e7a puramente restrita \u00e0 sua ocupa\u00e7\u00e3o comercial. Durante a conversa, ele precisa atender a liga\u00e7\u00e3o de um cliente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mesmo com esse uso, ainda h\u00e1 uma certa avers\u00e3o \u00e0 digitalidade e \u00e0 televis\u00e3o. \u201cVoc\u00ea percebe uma altera\u00e7\u00e3o no estado ps\u00edquico das pessoas. A gente tem essa preocupa\u00e7\u00e3o. Outra coisa voc\u00ea perguntou, sobre o aspecto b\u00edblico, nas escrituras se fala muito sobre o v\u00edcio, n\u00e9? O v\u00edcio \u00e9 um pecado, que \u00e9 tudo aquilo que faz mal, tanto para voc\u00ea quanto para o outro. \u00c9 um tipo de v\u00edcio diferente do qu\u00edmico, mas \u00e9 um v\u00edcio. As pessoas s\u00e3o viciadas em videogames, viciadas em televis\u00e3o, smartphone. E aquilo ali te traz um preju\u00edzo de v\u00e1rios aspectos. A\u00ed voc\u00ea engorda, cria outros tipos de doen\u00e7a autoimune, tudo por causa do sedentarismo\u201d. Lev Nadab concorda com a explica\u00e7\u00e3o de Bekor e diz que tamb\u00e9m tem-se uma preocupa\u00e7\u00e3o com as ondas e seus efeitos colaterais perigosos para a sa\u00fade, que os celulares, r\u00e1dio, microondas e televis\u00e3o emitem muitas ondas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entre os cl\u00e3s, espalhados pelas Am\u00e9ricas, Europa e \u00c1sia, a correspond\u00eancia se d\u00e1 primariamente via papel. H\u00e1 um curto Jornal Intertribal, por onde as pessoas informam suas necessidades, b\u00ean\u00e7\u00e3os e acontecimentos not\u00e1veis. \u201cNasceu um bezerro na Inglaterra, ou foram no Londres fazer uma caminhada. As crian\u00e7as gostam de ver isso, como os irm\u00e3os est\u00e3o\u201d, aos exemplos de Lev Nadab, Bekor adiciona a informa\u00e7\u00e3o de que o jornal \u00e9 impresso e distribu\u00eddo por cada cl\u00e3 e que h\u00e1 uma parte da publica\u00e7\u00e3o com ensinamentos b\u00edblicos. Al\u00e9m disso, as comunidades tamb\u00e9m mandam cartas entre si, por costume cultural e porque \u201cna verdade, \u00e9 bem mais lindo, n\u00e9?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No domingo da mesma semana, ocorreu a comemora\u00e7\u00e3o do Shavuot, tamb\u00e9m chamada de Pentecostes. A propriedade do cl\u00e3 estava inteira decorada por bandeirinhas e cartazes, feitos a m\u00e3o, com frases b\u00edblicas em ingl\u00eas. No jardim, perto da piscina com queda d\u2019\u00e1gua, havia uma mesa com salgados caseiros, melancia, uvas cobertas por chocolate e outros doces. Ao lado dela, uma barraquinha com caju\u00edna caseira e ch\u00e1 de hibisco. Em um fog\u00e3o \u00e0 lenha mais ao fundo, pinh\u00f5es e \u00e1gua para chimarr\u00e3o eram fervidos. No centro do jardim, um palco coberto por feltro e uma placa grande ao fundo escrito \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">50 days, years\u201d.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m dos membros do cl\u00e3, seus amigos, vizinhos e familiares tamb\u00e9m s\u00e3o chamados \u00e0 festa. H\u00e1 um contraste visual facilmente identific\u00e1vel entre quem vive na comunidade e quem est\u00e1 fora. As mulheres das Doze Tribos cobrem parte do cabelo com v\u00e9us coloridos e vestem batas estampadas com cal\u00e7as que s\u00e3o um meio termo entre as modelagens saruel e gaucho. Os homens vestem camisas de trabalho estilo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">lumberjack<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> com cal\u00e7a de sarja ou jeans, mant\u00e9m a barba e usam seus cabelos longos repartidos ao meio em um coque baixo. Al\u00e9m disso, na comemora\u00e7\u00e3o, todos usam uma faixa horizontal na cabe\u00e7a feita de barbante tran\u00e7ado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O in\u00edcio do Shavuot se d\u00e1 por uma prociss\u00e3o com m\u00fasica e canto, onde todos os membros seguram um bast\u00e3o com fitas coloridas de tecido TNT. Ela come\u00e7a na parte de tr\u00e1s da casa, sobe as escadas rumo \u00e0 piscina e quintal e termina ao redor do palco. Os convidados assistem, alguns filmam e um dos membros do cl\u00e3 fotografa o evento com uma c\u00e2mera Nikon da linha profissional. A m\u00fasica tocada \u00e9 no mesmo estilo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">folk<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> que toca no Yellow Deli, mas dessa vez \u00e9 acompanhada por letras b\u00edblicas em ingl\u00eas. \u00c0 frente, dois homens carregam uma bandeja com dois grandes p\u00e3es em formato triangular.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A l\u00edngua padr\u00e3o nas Doze Tribos \u00e9 o ingl\u00eas. Em parte porque o movimento iniciou nos Estados Unidos, onde at\u00e9 hoje a maioria das comunidades est\u00e3o. Em parte porque, segundo Bekor, \u201cos ap\u00f3stolos de Jesus usaram o grego ao inv\u00e9s do hebraico para escrever os escritos b\u00edblicos, pois era a l\u00edngua corrente na \u00e9poca. Ent\u00e3o n\u00f3s usamos o ingl\u00eas, pois \u00e9 a l\u00edngua corrente de hoje\u201d. Ap\u00f3s a prociss\u00e3o, Lev Nadab faz uma fala inicial sobre o significado de Pentecostes e dos dois p\u00e3es com levedura, feitos como oferta a Deus.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s isso, inicia-se um tipo de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, em que cada um dos, aproximadamente, 20 membros diz suas gra\u00e7as alcan\u00e7adas durante o \u00faltimo ano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bekor agradece inicialmente o fato de, pelo primeiro ano, as contas da comunidade estarem no azul ao inv\u00e9s do vermelho. Ele e sua esposa tamb\u00e9m agradecem pela chegada de seu filho, Daniel, aos 20 anos. A fam\u00edlia entrou na comunidade de Campo Largo em 2015. Eles queriam criar Daniel, na \u00e9poca uma crian\u00e7a de 10 anos, em um lugar que condizesse com os valores da fam\u00edlia e os ensinamentos b\u00edblicos. O casal n\u00e3o gostava da influ\u00eancia da escola e de outras crian\u00e7as do bairro em que moravam sobre seu filho. A m\u00e3e hesitou inicialmente, mas decidiu pela vida nas Doze Tribos ao \u201cmeu filho pedir \u2018mam\u00e3e eu quero ficar aqui\u2019 e ver como ele estava feliz\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m do relato da fam\u00edlia de Bekor, outros tr\u00eas ilustram bem os motivos pelos quais pessoas entram nas comunidades das Doze Tribos. O primeiro \u00e9 de uma dupla de irm\u00e3os, parte de uma fam\u00edlia que mora na comunidade de Campo Largo. A irm\u00e3 mais nova diz que sua b\u00ean\u00e7\u00e3o esse ano foi o retorno do irm\u00e3o mais velho, Tahor, \u00e0 comunidade. \u201cEu fui viver por dois anos no mundo, e l\u00e1 eu sentia sempre um vazio, passei por muitas dificuldades e era sempre triste. Eu percebi que nada que eu poderia ter l\u00e1 fora se compara com o que eu tenho aqui dentro\u201d. A fala de Tahor foi aplaudida com muita veem\u00eancia por todos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O segundo foi o de Raquel, uma mulher mineira de fala mansa na casa dos 50 anos. Ela agradeceu por \u201cum ano que eu virei uma ovelhinha. Eu fui batizada como Raquel, que significa ovelha em hebraico, um ano atr\u00e1s. Eu fui salva da vida natural sem sentido, por assim dizer, para renascer em uma vida espiritual. Eu posso ser velha de corpo, mas sou uma ovelha nova\u201d. Ela conheceu as Doze Tribos em uma feira em Belo Horizonte, ali\u00e1s, longe das comunidades deles. O interc\u00e2mbio de membros entre cl\u00e3s e tribos \u00e9 comum, assim como viagens mission\u00e1rias. Uma jovem viajou ano passado para o Alasca ajudar um cl\u00e3 com a pesca e limpeza de salm\u00e3o, de maneira parecida ao trabalho de constru\u00e7\u00e3o de casas que Daniel fez na Argentina ano passado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O terceiro foi o da m\u00e3e de um dos membros da comunidade, que a chamou para subir ao palco com ele apesar dela ainda n\u00e3o fazer parte das Doze Tribos. \u201cEu queria muito poder viver com voc\u00eas logo, da forma que \u00e9 a vontade de Deus, mas eu estou com muitos problemas ainda para resolver. Meu outro filho est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o muito muito dif\u00edcil mesmo, eu tento ajudar mas j\u00e1 sei que s\u00f3 ele pode se salvar. S\u00f3 que at\u00e9 l\u00e1, eu preciso ficar com ele, n\u00e3o posso vir aqui ainda viver com as irm\u00e3s e irm\u00e3os que eu j\u00e1 tanto amo\u201d, ela diz em meio a l\u00e1grimas doloridas e alguns solu\u00e7os esparsos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 poss\u00edvel perceber, entre os membros do cl\u00e3, que alguns eram crist\u00e3os evang\u00e9licos antes de trocar de nome e viver na comunidade, enquanto outros eram mais ligados a valores hippie e a espiritualidade <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">New Age<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. O apelo b\u00edblico e da vida comunal, longe da l\u00f3gica urbana e tecnol\u00f3gica da vida capitalista contempor\u00e2nea, \u00e9 igualmente atrativo para pessoas dos dois perfis. Tamb\u00e9m \u00e9 not\u00e1vel que diversas fam\u00edlias entraram na tribo de Naftali em 2015, a maioria em Campo Largo. A \u00e9poca, no Brasil, era de recess\u00e3o econ\u00f4mica, revolta pol\u00edtica e piora na qualidade de vida das pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao fim dos relatos e agradecimentos, Daniel, tr\u00eas crian\u00e7as e uma jovem come\u00e7am a tocar seus instrumentos e cantar em ingl\u00eas um louvor. O sol est\u00e1 mais baixo e o ch\u00e3o mais quente do que no in\u00edcio da festa. Nesse momento, o cl\u00e3 e seus convidados comem e bebem tudo que est\u00e1 dispon\u00edvel nas mesinhas e barraquinhas que lembram as de uma quermesse pequena. No caminho de volta da ch\u00e1cara a S\u00e3o Paulo, as curvas dos morros de Itapecerica come\u00e7am a dar lugar \u00e0s vias retil\u00edneas da R\u00e9gis Bittencourt e da Zona Sul.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Conhecendo as pessoas religiosas que escolhem uma vida offline &#8211; por Paloma Lazzaro Saliba\u00a0\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2061\"> <\/a>","protected":false},"author":138,"featured_media":2062,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[590],"tags":[],"class_list":["post-2061","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-babel-2025-ed-junho"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Monges, templos e doze tribos - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=2061\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Monges, templos e doze tribos - 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