{"id":1968,"date":"2025-06-27T00:35:27","date_gmt":"2025-06-27T03:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1968"},"modified":"2025-07-01T11:23:34","modified_gmt":"2025-07-01T14:23:34","slug":"ler-para-crer-o-futuro-das-criancas-passa-pela-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1968","title":{"rendered":"Ler para crer: o futuro das crian\u00e7as passa pela leitura"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(Imagem: Julia Magalh\u00e3es)<\/span><\/p>\n<p><em>Entre a magia da leitura e a realidade desigual, a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e o faz-de-conta permanecem imbat\u00edveis<\/em><\/p>\n<p><b>Por <\/b>Ricardo Thom\u00e9 (ricardo.thome@usp.br)<\/p>\n<p>Vers\u00e3o em \u00e1udio:<\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: Audiodescri\u00e7\u00e3o - Ler para crer: o futuro das crian\u00e7as passa pela leitura\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/6LxB2JZdRBJqT2WsMdkSOZ?si=lSFQ5JgJT2Ku57gX5qCdSw&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cFeche os olhos e escute a respira\u00e7\u00e3o, o ar entrando e saindo\u2026Quanto ar voc\u00ea \u00e9 capaz de inspirar? Pode respirar at\u00e9 os dedos dos p\u00e9s? Se fizer isso, pode voar como os pensamentos. Os pensamentos podem lev\u00e1-lo a qualquer lugar, principalmente com a ajuda de uma lanterninha m\u00e1gica. Apanhe essa lanterna, acenda-a e fique em p\u00e9 no meio de um c\u00edrculo de luz. Esse c\u00edrculo aumentar\u00e1 cada vez mais e vai criar um Caminho Encantado\u2026Aonde ele o levar\u00e1 nesta noite?\u201d. O trecho \u00e9 do conto \u201cA loja de brinquedos de \u00c2ngela\u201d, primeira das vinte hist\u00f3rias presentes no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Noites Iluminadas: Hist\u00f3rias para ler na hora de dormir que estimulam a calma, a confian\u00e7a e a criatividade em seu filho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Publifolha, 2004) \u2014 que tem introdu\u00e7\u00e3o por David Fontana e contos por Anne Civardi, Kate Petty, Joyce Dunbar e Louisa Somerville.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O livro j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 dos mais recentes \u2014 a reportagem, inclusive, pretendia entrevistar pelo menos um dos autores, mas esbarrou no fato de que alguns deles j\u00e1 tomaram o rumo de seus pr\u00f3prios caminhos encantados. O tempo passou. Mas a mensagem trazida pelas hist\u00f3rias e, principalmente, pelo pre\u00e2mbulo intitulado \u201cRecado aos pais\u201d, assinado por David Fontana (1934-2010), \u00e9 atemporal, e poderia resumir, sozinha, todo o trabalho de entrevistas e dessa mat\u00e9ria. Fato \u00e9 que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Noites Iluminadas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> foi o cerne de inspira\u00e7\u00e3o para que o ler para e com crian\u00e7as se tornasse tema de uma reportagem. A <\/span><b>Revista Babel <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">conversou com professoras e especialistas do ramo da psiquiatria, da psicologia e da pedagogia, al\u00e9m de pais de crian\u00e7as pequenas e de um escritor, a fim de entender por que a lanterninha m\u00e1gica de algumas crian\u00e7as tem sido mais acendida do que a de outras no Brasil dos dias de hoje \u2014 e o qu\u00e3o importante \u00e9 mant\u00ea-la funcionando.\u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1969\" aria-describedby=\"caption-attachment-1969\" style=\"width: 2560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1969\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Noites-iluminadas-1-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1920\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Noites-iluminadas-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Noites-iluminadas-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Noites-iluminadas-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Noites-iluminadas-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Noites-iluminadas-1-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Noites-iluminadas-1-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1969\" class=\"wp-caption-text\">Capa da edi\u00e7\u00e3o brasileira do livro Noites Iluminadas: Hist\u00f3rias para ler na hora de dormir que estimulam a calma, a confian\u00e7a e a criatividade em seu filho (Publifolha, 2004) \u2014 Imagem\/Arquivo Pessoal: Ricardo Thom\u00e9]<\/figcaption><\/figure>\n<p><b>O faz de conta na escola: mais do que uma descontra\u00e7\u00e3o, uma necessidade<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O conceito de inf\u00e2ncia tal como conhecemos hoje \u00e9 relativamente recente na sociedade ocidental. Por muitos s\u00e9culos, as crian\u00e7as eram tratadas como \u201cpequenos adultos\u201d e eram colocadas para trabalhar desde cedo, por exemplo. A diferencia\u00e7\u00e3o oficial do que seria uma crian\u00e7a s\u00f3 veio na segunda metade do s\u00e9culo 20, em 1959, com a <\/span><a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/brazil\/media\/22026\/file\/declaracao-dos-direitos-da-crianca-1959.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos da Crian\u00e7a<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2014 refor\u00e7ada em 1989, com a <\/span><a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/brazil\/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca\"><span style=\"font-weight: 400;\">Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">. Em ambos os documentos, h\u00e1 a men\u00e7\u00e3o ao \u201cbrincar\u201d como um direito. No Brasil, a <\/span><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/constituicao\/constituicao.htm\"><span style=\"font-weight: 400;\">Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> e o <\/span><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l8069.htm\"><span style=\"font-weight: 400;\">Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (1990)<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> tamb\u00e9m t\u00eam essa ideia, que, pela primeira vez, trazia a educa\u00e7\u00e3o como algo que transcendia o aprendizado de habilidades pr\u00e1ticas visando \u00e0 alguma funcionalidade futura.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em fevereiro de 2006, foi aprovada a <\/span><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2004-2006\/2006\/lei\/l11274.htm\"><span style=\"font-weight: 400;\">lei n\u00ba 11.274<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que fez com que o Ensino Fundamental obrigat\u00f3rio no Brasil durasse, a partir de 2010, nove anos \u2014 em vez de oito, como costumava ser. Cinco anos antes, o <\/span><a href=\"https:\/\/portal.mec.gov.br\/arquivos\/pdf\/L10172.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">Plano Nacional da Educa\u00e7\u00e3o (PNE) de 2001<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> passou a determinar que o Ensino Infantil fosse mais do que um programa de recrea\u00e7\u00e3o, mas, sim, uma ferramenta de desenvolvimento integral da crian\u00e7a, em que a interpreta\u00e7\u00e3o do mundo fosse uma habilidade a ser desenvolvida. Diante de todas essas transforma\u00e7\u00f5es, a transi\u00e7\u00e3o entre Ensino Infantil e Ensino Fundamental \u2014 que passaria a receber crian\u00e7as ainda mais novas, a partir dos seis anos de idade \u2014 fez-se digna de aten\u00e7\u00e3o. E \u00e9 sobre a import\u00e2ncia do l\u00fadico na educa\u00e7\u00e3o que se debru\u00e7ou <\/span><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.11606\/D.48.2022.tde-01122022-101430\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Brincar e o aprender a ler e a escrever na Educa\u00e7\u00e3o Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">: a inf\u00e2ncia em foco<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, disserta\u00e7\u00e3o de mestrado defendida por Rafaela Barbosa Am\u00e9rico na Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o (FE) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em 2022.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em seu trabalho, Rafaela observou os efeitos das transforma\u00e7\u00f5es na educa\u00e7\u00e3o brasileira tendo como base a Escola de Aplica\u00e7\u00e3o da FE-USP, e trouxe como uma das constata\u00e7\u00f5es a relev\u00e2ncia do eixo magia\/arte para aproximar as crian\u00e7as do universo art\u00edstico por meio de um \u201cencantamento\u201d. Assim como nas hist\u00f3rias de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Noites Iluminadas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ela considera o brincar como chave em qualquer proposta educacional at\u00e9 os 11 anos de idade. Mais do que isso, as crian\u00e7as devem ter o poder de escolha sobre como \u2014 e de qu\u00ea \u2014 querem brincar. De volta ao livro, ainda na sess\u00e3o \u201cRecado aos pais\u201d, David Fontana \u00e9 claro ao trazer a ideia de que esse desenvolvimento, intimamente ligado \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o e \u00e0 criatividade, pode \u2014 e deve \u2014 ser desenvolvido com o aux\u00edlio da leitura: \u201cler n\u00e3o estimula apenas a imagina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as: tamb\u00e9m ajuda-as a vivenciar o amplo espectro das pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es\u201d, as quais aumentam de complexidade conforme as crian\u00e7as v\u00e3o crescendo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 nesse intuito que, ao final de cada hist\u00f3ria, o livro traz pensamentos e reflex\u00f5es que podem ser inferidos a partir do texto. Mais do que uma colet\u00e2nea de contos, \u00e9 um tutorial de leitura para os pais (ou para quem quer que v\u00e1 ler para a crian\u00e7a) e um po\u00e7o de imagina\u00e7\u00e3o para os pequenos \u2014 o livro \u00e9 indicado para crian\u00e7as a partir de sete anos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Luz piscante<\/b><\/p>\n<figure id=\"attachment_1970\" aria-describedby=\"caption-attachment-1970\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1970 size-medium\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Idmea-Semeghini-Siqueira-200x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Idmea-Semeghini-Siqueira-200x300.jpeg 200w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Idmea-Semeghini-Siqueira-512x768.jpeg 512w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Idmea-Semeghini-Siqueira-768x1153.jpeg 768w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Idmea-Semeghini-Siqueira-1023x1536.jpeg 1023w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Idmea-Semeghini-Siqueira.jpeg 1066w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1970\" class=\"wp-caption-text\">Idmea Semeghini-Siqueira (foto) \u00e9 professora s\u00eanior livre-docente da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o (FE) da USP<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas a orientadora da disserta\u00e7\u00e3o de mestrado da FE-USP, a professora s\u00eanior livre-docente Idmea Semeghini-Siqueira alerta para o fato de que muitas crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ideais para que a leitura seja parte natural de seu dia a dia e do seu desenvolvimento: \u201cMuitas m\u00e3es n\u00e3o t\u00eam tempo de cuidar das crian\u00e7as, porque t\u00eam que trabalhar, porque t\u00eam que cuidar da casa\u2026\u00e0s vezes, elas tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o alfabetizadas\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Casos como esses est\u00e3o computados e contemplados pela pesquisa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Retratos da Leitura no Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, realizada pelo Instituto Pr\u00f3-Livro em conjunto com o Minist\u00e9rio da Cultura e na qual Idmea tem participa\u00e7\u00e3o. Na <\/span><a href=\"https:\/\/www.prolivro.org.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Apresentac%CC%A7a%CC%83o_Retratos_da_Leitura_2024_13-11_SITE.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">edi\u00e7\u00e3o mais recente<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, a sexta, referente a 2024, 10% das pessoas consideradas leitoras \u2014 que leram um livro ou partes de um livro nos tr\u00eas meses anteriores \u00e0 entrevista para a pesquisa \u2014 tinham pais analfabetos, n\u00famero que quase dobra em se tratando de pessoas n\u00e3o leitoras (19%). No que diz respeito \u00e0 falta de tempo, essa \u00e9 a principal alega\u00e7\u00e3o de pessoas leitoras para justificar por que n\u00e3o leem mais (46%) e de pessoas n\u00e3o leitoras para justificar por que n\u00e3o leem (33%). No caso de quem n\u00e3o l\u00ea, por\u00e9m, a alega\u00e7\u00e3o \u00e9 seguida de perto por n\u00e3o gostar de ler (32%).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre o gosto pela leitura, a pesquisa aponta que existe uma correla\u00e7\u00e3o entre crian\u00e7as que tiveram pessoas que liam com elas e que s\u00e3o, hoje, leitoras: na faixa et\u00e1ria entre os 5 e os 13 anos, 46% dos leitores teve pessoas pr\u00f3ximas que liam com elas sempre ou \u00e0s vezes, enquanto 72% dos n\u00e3o leitores nunca tiveram isso. Indo al\u00e9m, Idmea lembra que o gosto pela leitura tem participa\u00e7\u00e3o importante das creches \u2014 e menos de 40% das crian\u00e7as brasileiras de 0 a 3 anos est\u00e3o matriculadas em creches, de acordo com o IBGE.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De uma forma ou de outra, a falta de contato com os livros \u00e9 o principal fator para que o h\u00e1bito da leitura n\u00e3o seja presen\u00e7a constante no dia a dia de muitos brasileiros, mesmo dentre aqueles que dizem n\u00e3o gostar. \u00c9 o que defende a pedagoga, mestre em forma\u00e7\u00e3o de professores e especialista em literatura infantil e pr\u00e1ticas de leitura na escola, Silvia Zerbini: \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Comecei a estudar literatura infantil e pr\u00e1ticas de leitura na escola quando eu percebi, justamente, que as crian\u00e7as amavam quando l\u00edamos livros para elas. Elas paravam de brincar para poderem ler\u201d. Ela ressalta a import\u00e2ncia, tamb\u00e9m, de que o livro seja acess\u00edvel para toda a comunidade escolar de forma a promover reflex\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es: \u201c\u00c0s vezes, n\u00e3o adianta o livro ir para casa. \u00c9 necess\u00e1rio que se escute algu\u00e9m contando aquele livro, porque \u00e9 nessa conversa que a leitura se expande: cada um vai falar sobre como foi afetado por aquela hist\u00f3ria, e a\u00ed todo mundo vai ouvir e vai aumentar a compreens\u00e3o e a experi\u00eancia compartilhada, que ampliam o olhar\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro dado da pesquisa do Instituto Pr\u00f3-Livro que n\u00e3o surpreende, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de alarmar, \u00e9 a disparidade entre o n\u00famero de leitores nas classes sociais mais e menos privilegiadas financeiramente. Em fam\u00edlias com renda de at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo \u2014 hoje, 1518 reais \u2014, 87% n\u00e3o compram livros, valor que vai diminuindo conforme a renda mensal aumenta, at\u00e9 que, em fam\u00edlias com ganho mensal superior a 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, 61% compram livros. Essa diferen\u00e7a poderia ser compensada por bibliotecas p\u00fablicas, por exemplo, mas a cultura de bibliotecas no Brasil ainda \u00e9 incipiente: 46% dos consumidores de livros no Brasil o fazem por meio da compra, enquanto somente 16% v\u00e3o a bibliotecas.<\/span><\/p>\n<p><b>Contar hist\u00f3rias \u00e9 arte, n\u00e3o instrumento<\/b><\/p>\n<figure id=\"attachment_1971\" aria-describedby=\"caption-attachment-1971\" style=\"width: 225px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1971 size-medium\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Silvia-Zerbini-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Silvia-Zerbini-225x300.jpeg 225w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Silvia-Zerbini-575x768.jpeg 575w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Silvia-Zerbini-768x1025.jpeg 768w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Silvia-Zerbini.jpeg 959w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1971\" class=\"wp-caption-text\">Silvia Zerbini (foto) \u00e9 pedagoga, mestre em forma\u00e7\u00e3o de professores e especialista em literatura infantil e pr\u00e1ticas de leitura na escola \u2014 Imagem\/Arquivo Pessoal: Silvia Zerbini<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi un\u00e2nime entre os especialistas consultados pela <\/span><b>Babel <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">a opini\u00e3o de que existe, no Brasil, um ideal de que a leitura deve servir para fins did\u00e1ticos ou objetivos \u2014 e que essa cultura deve mudar. \u201cSe pegarmos o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> hist\u00f3rico tanto europeu, quanto brasileiro, a literatura infantil surge como uma demanda escolar, como uma demanda para alfabetiza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para fingir que n\u00e3o \u00e9 assim. E n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa, tamb\u00e9m, que a literatura infantil esteja t\u00e3o presente nas escolas infantis\u201d, observa C\u00e1ssia Bittens, psic\u00f3loga especialista em psicoterapia anal\u00edtica. Silvia complementa a ideia, e ressalta a import\u00e2ncia de estar presente, de fato, quando se est\u00e1 lendo com uma crian\u00e7a: \u201cEu falo para as professoras com quem eu fa\u00e7o forma\u00e7\u00e3o que elas precisam parar de olhar para a leitura como um componente curricular da escola, como uma tarefa. Precisa olhar como uma experi\u00eancia. A crian\u00e7a sempre est\u00e1 presente, o dif\u00edcil \u00e9 o adulto estar\u201d. Ela cita a pesquisadora colombiana Yolanda Reyes, que afirma que, quando essa presen\u00e7a do adulto existe, forma-se um tri\u00e2ngulo amoroso entre o adulto, a crian\u00e7a e o livro. \u201cO leitor, que alarga sua pr\u00f3pria fronteira de experi\u00eancias sens\u00edveis, vai ler de outro jeito para a crian\u00e7a. Mesmo as pessoas que n\u00e3o s\u00e3o alfabetizadas, quando se interessam por ouvir uma hist\u00f3ria, por ir a uma exposi\u00e7\u00e3o, por ter experi\u00eancias subjetivas com a arte, v\u00e3o ter esse espa\u00e7o alargado\u201d, completa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, s\u00f3 uma parte dos potenciais da literatura no contato com crian\u00e7as. Para Pedro Bandeira, escritor de livros infanto-juvenis, o mais importante \u00e9 que elas sejam letradas: \u201cN\u00e3o existe outra forma de se engajar na sociedade e de progredir na vida. Quando uma crian\u00e7a nasce, ela n\u00e3o fala, mas ouve, e o vocabul\u00e1rio passivo dela j\u00e1 vai se formando\u201d. Segundo ele, o desenvolvimento do letramento das crian\u00e7as passa por conversar bastante com ela e por deix\u00e1-la agir como crian\u00e7a que \u00e9: \u201cE falar certo, n\u00e3o o \u2018nh\u00e9, nh\u00e9, nh\u00e9\u2019. Quando estiver lendo hist\u00f3rias, deixe ela pegar o livro \u2014 porque, nesse momento, o tato \u00e9 na boca\u201d. Aos poucos, a crian\u00e7a vai entendendo como o livro funciona.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bandeira comenta, ainda, sobre os livros did\u00e1ticos, que, na vis\u00e3o dele, est\u00e3o utilizando, cada vez mais, de recursos t\u00edpicos dos romances e das novelas a fim de tornarem o conte\u00fado mais atrativo: \u201cO livro did\u00e1tico tamb\u00e9m \u00e9 escrito, mas \u00e9 como se ele desse conselhos. A literatura \u00e9 o que faz voc\u00ea pensar e chegar a conclus\u00f5es. E todos descobriram que a literatura \u00e9 a m\u00e3e de todas as artes. E \u00e9 a m\u00e3e do futuro\u201d. Nesse sentido, ele enxerga o ler como um \u201cato de liberdade\u201d: \u201c\u00c9 um ato em que voc\u00ea \u00e9 completo, voc\u00ea \u00e9, tamb\u00e9m, o autor, porque voc\u00ea compartilha tudo o que n\u00e3o est\u00e1 no livro, como rostos e cen\u00e1rios\u201d. O escritor traz o exemplo da personagem Capitu, de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dom Casmurro <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(Machado de Assis, 1899): \u201c\u00c9 muito mais gostoso ler essa obra e ficar discutindo se a Capitu traiu ou n\u00e3o o Bentinho, porque isso depende de voc\u00ea. Voc\u00ea chega a conclus\u00f5es que independem do que o escritor pensa\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na entrevista \u00e0 <\/span><b>Babel<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, Pedro Bandeira lamentou que quest\u00f5es socioecon\u00f4micas e de desigualdade social sejam respons\u00e1veis por manter tantas crian\u00e7as distantes da literatura. Sobre isso, C\u00e1ssia destaca a necessidade de se dar o devido valor \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o oral do Brasil, que \u00e9, tamb\u00e9m, de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias. \u201cInfelizmente ainda temos a ideia de que literatura se reduz \u00e0 decodifica\u00e7\u00e3o do c\u00f3digo. Aqui no Brasil temos a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria como algo muito presente no dia a dia, mas tratamos isso com desprezo, como banal. Contar hist\u00f3rias \u00e9 profundamente liter\u00e1rio. Porque no que depender do livro, no Brasil \u00e9 muito caro. \u00c9 vergonhoso\u201d, avalia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para tratar de exemplos que caminham na contram\u00e3o da elitiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 literatura, C\u00e1ssia cita o programa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Minha Biblioteca<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, da Prefeitura de S\u00e3o Paulo. Criado em 2007, ele se encontra <\/span><a href=\"https:\/\/www.publishnews.com.br\/materias\/2025\/04\/17\/programa-minha-biblioteca-interrupcao-sem-justificativa-causa-indignacao-entre-editoras-e-e-levada-ao-ministerio-publico\"><span style=\"font-weight: 400;\">fora do ar desde 2024<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, mas previa a distribui\u00e7\u00e3o de dois livros por estudante cadastrado por ano, de acordo com sua faixa et\u00e1ria. Em paralelo, \u00e9 poss\u00edvel citar o programa <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Leia para uma crian\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, criado pelo Ita\u00fa Social, em 2010, que consistia <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">no envio gratuito de livros de literatura infantil para todo o Brasil, de modo a estimular o acesso \u00e0 cultura e \u00e0 literatura. Hoje, remodelado, o programa n\u00e3o atende mais pessoas f\u00edsicas, focando seus esfor\u00e7os para atender secretarias de cultura e Organiza\u00e7\u00f5es da Sociedade Civil (OSCs), al\u00e9m de ter trocado a preposi\u00e7\u00e3o de seu nome \u2014 agora, \u00e9 <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Leia <\/span><\/i><b><i>com<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400;\"> uma crian\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Uma mudan\u00e7a sutil, mas de um simbolismo grande quando se pensa nos prop\u00f3sitos de leitura para al\u00e9m da sua instrumentalidade.<\/span><\/p>\n<p><b>Sim, beb\u00eas leem.<\/b><\/p>\n<figure id=\"attachment_1972\" aria-describedby=\"caption-attachment-1972\" style=\"width: 508px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1972\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Luciana-Silveira.jpeg\" alt=\"\" width=\"508\" height=\"517\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Luciana-Silveira.jpeg 508w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Luciana-Silveira-295x300.jpeg 295w\" sizes=\"auto, (max-width: 508px) 100vw, 508px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1972\" class=\"wp-caption-text\">Luciana Silveira (foto) \u00e9 professora, contadora de hist\u00f3rias e pedagoga Waldorf \u2014 Imagem\/Arquivo Pessoal: Luciana Silveira<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando se fala em estar de corpo e alma lendo com a crian\u00e7a, isso tamb\u00e9m vale para os beb\u00eas. Mesmo que a comunica\u00e7\u00e3o e a locomo\u00e7\u00e3o n\u00e3o sejam o forte deles, a literatura tem uma influ\u00eancia t\u00e3o grande sobre o seu desenvolvimento que existem, hoje, livrarias especializadas em conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias para beb\u00eas. A reportagem da <\/span><b>Babel <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">foi visitar a Livraria Entretempo, na Vila Pirajussara, zona oeste de S\u00e3o Paulo, que recebe, um s\u00e1bado ao m\u00eas, conta\u00e7\u00f5es de hist\u00f3rias focadas em crian\u00e7as bem pequenas. \u00c0s 10 horas da manh\u00e3 do dia 7 de junho, cinco casais de pais com seus filhos de at\u00e9 um ano e meio de idade chegaram \u00e0 Rua Major Rubens Florentino Vaz, 19, sentaram em roda e escutaram uma historinha r\u00e1pida sobre uma fam\u00edlia que morava no interior e tinha que se ajudar para conseguir semear um p\u00e9 de beterraba. A conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias foi realizada com bonequinhos de pano feitos \u00e0 m\u00e3o por Luciana Silveira, contadora que estava na livraria. Lu, como se apresenta para as fam\u00edlias, canta em suas rodas de leitura e usa do K\u00e2ntele Pentat\u00f4nico, uma esp\u00e9cie de harpa, para chamar a aten\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. O diferencial desse instrumento \u00e9 que qualquer sequ\u00eancia de notas tocadas nele se torna melodia, al\u00e9m de n\u00e3o possuir as notas d\u00f3 e f\u00e1.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lu conta que se descobriu contadora de hist\u00f3rias buscando a mem\u00f3ria de seu pai, que contava hist\u00f3rias de terror para ela quando pequena. Devido \u00e0 maior dificuldade dos pequenos em manter a concentra\u00e7\u00e3o e \u00e0 conta\u00e7\u00e3o ocorrer no per\u00edodo de soneca deles, ela opta sempre por uma hist\u00f3ria de at\u00e9 20 minutos e, logo depois, mais 20 minutos onde brinquedos s\u00e3o espalhados para as crian\u00e7as brincarem. \u201cE tem funcionado bem. Eles ouvem a hist\u00f3ria, alguns at\u00e9 se expressam. \u00c0s vezes, tem uns que s\u00e3o mais agitados, as fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam muito conhecimento para lidar e n\u00e3o d\u00e1 para pedir que fiquem quietos. \u00c9 querer que ele seja algo que n\u00e3o \u00e9\u201d. Sobre esse tipo de rea\u00e7\u00e3o, C\u00e1ssia comenta que o beb\u00ea est\u00e1 poroso \u00e0 linguagem de uma forma que as pessoas adultas n\u00e3o conseguem mais estar: \u201cEle participa da cena com o corpo todo. Os olhos se arregalam, a respira\u00e7\u00e3o muda e o gesto se estende\u201d. A literatura passa a ser, ent\u00e3o, uma \u201cpresen\u00e7a que se oferece sem pressa\u201d, um \u201ctempo oferecido ao sens\u00edvel\u201d. Mais do que isso, \u00e9 estabelecida uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a: \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Quando oferecemos literatura a uma crian\u00e7a t\u00e3o pequena, estamos dizendo: \u2018voc\u00ea \u00e9 digno de escuta\u2019\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi com base nessa percep\u00e7\u00e3o da leitura com crian\u00e7as que C\u00e1ssia criou o projeto <\/span><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/literaturadeberco\/\"><i><span style=\"font-weight: 400;\">Literatura de Ber\u00e7o<\/span><\/i><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">, que acontece, hoje, de forma online, por meio de um grupo de estudos que re\u00fane m\u00e3es, professoras e pesquisadoras, uma vez por m\u00eas, e o Clube do Livro, dispon\u00edvel no Instagram. Al\u00e9m disso, desde 2021 ela faz, junto ao grupo do projeto, o Simp\u00f3sio Internacional de Literatura de Ber\u00e7o \u2014 2025 marcou a <\/span><a href=\"https:\/\/eventos.pucsp.br\/3-simp-int-lit-berco-532608\"><span style=\"font-weight: 400;\">quinta edi\u00e7\u00e3o<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2014 na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) S\u00e3o Paulo. \u201cO evento \u00e9 h\u00edbrido,\u00a0 re\u00fane fam\u00edlias, pesquisadores da educa\u00e7\u00e3o e aborda tanto a teoria, quanto a pr\u00e1tica da introdu\u00e7\u00e3o da literatura para crian\u00e7as. Neste ano, foram quase 300 pessoas presencialmente\u201d, conta.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dentre os pensamentos que a psic\u00f3loga desenvolveu em suas pesquisas, est\u00e1 o da inser\u00e7\u00e3o do beb\u00ea na literatura, para al\u00e9m dos aspectos cognitivos concretos, como o tamanho da cabe\u00e7a, as sinapses e as percep\u00e7\u00f5es. Segundo ela, o beb\u00ea j\u00e1 desenvolve a capacidade de audi\u00e7\u00e3o a partir de 20 semanas, no que a autora espanhola Beatriz Sanju\u00e1n denomina, no livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Era uma voz. O primeiro livro do beb\u00ea <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(2023), \u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">gourmet musical<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201d. \u201cQuando ele come\u00e7a a ouvir, ele est\u00e1 envolto em todos os ritmos: o ritmo do cora\u00e7\u00e3o, o ritmo do intestino funcionando, o ritmo do espanto\u2026tudo o que envolve o corpo da m\u00e3e e, ainda, as palavras externas, com o adendo da a barreira da pele, do l\u00edquido. E o ritmo do nosso corpo, ela fala, \u00e9 super sincronizado\u201d, explica. Tendo isso como base, ela cita o psicanalista franc\u00eas Bernard Golse, que fala que o ser humano aprende a palavra primeiro pela musicalidade e s\u00f3 depois pelo significado. \u201cEnt\u00e3o, quando estamos lendo com o beb\u00ea, estamos proporcionando que ele tenha o que tem de mais liter\u00e1rio poss\u00edvel. E ele est\u00e1 apto a absorver isso\u2019, completa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>A barreira das telas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em uma das vastas e preenchidas prateleiras da Livraria Entretempo, h\u00e1 uma plaquinha onde se l\u00ea \u201cOffline\u201d. E n\u00e3o s\u00f3 por ser tema desta edi\u00e7\u00e3o da <\/span><b>Revista Babel<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, mas o offline \u00e9, cada vez mais, um t\u00f3pico, diante de adultos e crian\u00e7as que vivem com os olhos impregnados nas telas dos computadores e celulares. No caso dos pequenos, o problema \u00e9 ainda maior: eles n\u00e3o est\u00e3o totalmente formados, f\u00edsica, psicol\u00f3gica ou mesmo socialmente. Para C\u00e1ssia Bittens, demonizar a tecnologia n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, afinal, ela j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed \u2014 e n\u00e3o vai embora: \u201cO que me preocupa, como psic\u00f3loga e como pesquisadora da primeira inf\u00e2ncia, \u00e9 o tipo de rela\u00e7\u00e3o que <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">estamos permitindo que se estabele\u00e7a com elas. Quando a tela substitui a presen\u00e7a do outro, quando ela preenche todos os sil\u00eancios, quando se torna a resposta autom\u00e1tica ao choro ou ao t\u00e9dio,\u00a0 a\u00ed h\u00e1 uma perda simb\u00f3lica importante\u201d. Silvia exemplifica: \u201cUma crian\u00e7a que assiste a um v\u00eddeo est\u00e1 recebendo uma coisa j\u00e1 completa. Ela tem, mastigadinho, a imagem, o movimento, a hist\u00f3ria, o texto. Ela fica numa posi\u00e7\u00e3o super passiva, de receptora, diferentemente do que acontece quando ela l\u00ea um livro\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ler para crer: o futuro das crian\u00e7as passa pela leitura - Babel Offline\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_UF39IaFSLc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<figure id=\"attachment_1973\" aria-describedby=\"caption-attachment-1973\" style=\"width: 138px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1973 size-medium\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cassia-Bittens-138x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"138\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cassia-Bittens-138x300.jpeg 138w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cassia-Bittens-354x768.jpeg 354w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cassia-Bittens-708x1536.jpeg 708w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Cassia-Bittens.jpeg 737w\" sizes=\"auto, (max-width: 138px) 100vw, 138px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1973\" class=\"wp-caption-text\">C\u00e1ssia Bittens (foto) \u00e9 psic\u00f3loga especializada em psicoterapia anal\u00edtica \u2014 Imagem\/Arquivo Pessoal: C\u00e1ssia Bittens<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para Silvia, a recente <\/span><a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/1126717-sancionada-lei-que-proibe-o-uso-de-celular-em-escolas\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">proibi\u00e7\u00e3o do uso de celulares nas escolas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> de todo o Brasil \u00e9 apenas a \u201cponta do iceberg\u201d: \u201cEm muitas escolas, o celular j\u00e1 era proibido. Se algu\u00e9m fica mais de quatro horas e meia por dia no celular, n\u00e3o \u00e9 na escola que est\u00e1 o problema. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 em casa. E o problema tamb\u00e9m est\u00e1 nos adultos, porque os adultos s\u00e3o os maiores modelos. Ent\u00e3o, \u00e9 muito complicado pedir para o seu filho sair do celular quando voc\u00ea n\u00e3o sai do celular\u201d, reflete. Ela prop\u00f5e que exista uma dosagem consciente do consumo das telas. C\u00e1ssia, por sua vez, v\u00ea as telas como algo antinatural na cria\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a: \u201cPrecisamos de resgatar a experi\u00eancia da linguagem encarnada, que vem de um rosto, de uma pausa, de uma escuta. O beb\u00ea precisa da frustra\u00e7\u00e3o, do tempo, do ritmo, da pausa e da espera, para se constituir como sujeito. E o humano aprende com o humano, n\u00e3o tem tela que substitua isso\u201d. Para ela, a aten\u00e7\u00e3o que a leitura com crian\u00e7as oferece \u00e9 partilhada, n\u00e3o dividida, e mesmo as intera\u00e7\u00f5es sociais aparentemente saud\u00e1veis via aplicativos de mensagens, por exemplo, podem ser ruins se n\u00e3o houve a parcela do tato, do afeto e da profundidade, uma vez que somos, todos, seres tridimensionais \u2014 e as telas, planas.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na opini\u00e3o de Mar\u00edlia Almeida, propriet\u00e1ria da Livraria Entretempo e psiquiatra e psicanalista da inf\u00e2ncia de forma\u00e7\u00e3o, a conscientiza\u00e7\u00e3o vem ocorrendo aos poucos \u2014 ainda que n\u00e3o de forma saud\u00e1vel: \u201cEu acompanhei muito todo esse processo trabalhando com crian\u00e7as. Primeiro era a quest\u00e3o da televis\u00e3o. Depois, come\u00e7ou a ser o videogame. E agora as telas, principalmente de celulares. E foi assustador\u201d. Ela diz que, embora os efeitos comecem a aparecer, faltam espa\u00e7os que ofere\u00e7am alternativas \u00e0 rotina viciante do celular, como as livrarias: \u201cTem havido, aos poucos, um movimento de reabertura de livrarias. A Amazon ainda \u00e9 uma competi\u00e7\u00e3o e faliu muitas das grandes redes de livrarias, mas o p\u00fablico das livrarias de rua \u00e9 outro: \u00e9 um p\u00fablico que quer ter contato com o livro, que quer uma indica\u00e7\u00e3o. E eu acho importante ter esses espa\u00e7os para mostrar que tem alternativas, que tem jogos, que tem o que fazer!\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pedro Bandeira \u00e9 um pouco mais pr\u00e1tico: para ele, a atitude do pai ou respons\u00e1vel \u00e9 o primeiro passo para impedir que as telas sejam um problema desde muito cedo. Para ele, a crian\u00e7a pequena vai sempre preferir a companhia do pai ou da m\u00e3e, por exemplo, em vez da de uma tecnologia. Ele conta a hist\u00f3ria de um amigo muito rico que reclamava que a orientadora da escola sempre o chamava para conversar sobre o filho dele, alegando que o filho dele era problema dela: \u201cA\u00ed voc\u00ea v\u00ea porque o menino tinha problemas na escola: ele n\u00e3o tinha pai!. A escola n\u00e3o educa, a escola ajuda. Ela entra tarde na vida do ser humano para dar aquilo que a fam\u00edlia n\u00e3o pode dar. Mas o exemplo, o carinho, a aten\u00e7\u00e3o\u2026precisa vir da fam\u00edlia. N\u00e3o precisa ser algo intelectual\u201d. Bandeira tem, na pr\u00f3pria m\u00e3e, o exemplo de algu\u00e9m que, nas palavras dele, n\u00e3o era leitora nem muito letrada, mas que contava hist\u00f3rias para ele, o que o incentivou a gostar de ler desde cedo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A presen\u00e7a da tela na vida de crian\u00e7as pequenas j\u00e1 se reflete na <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Retratos da Leitura<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">: quando indagadas sobre o que gostavam de fazer no tempo livre, 68% das crian\u00e7as de 5 a 10 anos responderam \u201cusar a internet\u201d, 70% responderam \u201cassistir \u00e0 televis\u00e3o\u201d, 43% responderam jogar videogames ou outros jogos, e 20% participar de oficinas ou de aulas de arte. Para complementar, justificativas como \u201cfalta de paci\u00eancia\u201d e \u201cdificuldade de concentra\u00e7\u00e3o\u201d tamb\u00e9m v\u00eam aumentando nos \u00faltimos anos. Apesar disso, a faixa et\u00e1ria dos 5 aos 10 anos \u00e9 aquela que tem o maior apre\u00e7o pela leitura (41%), seguida da faixa dos 11 aos 13 (28%). Gostar, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o problema.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Pedagogia Waldorf: um jeito diferente de contar hist\u00f3rias<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A metodologia de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias\u00a0 de Lu Silveira n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa: ela segue uma linha educacional chamada de Pedagogia Waldorf. Dentro da conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, a ideia da pedagogia Waldorf \u00e9 fazer uma reprodu\u00e7\u00e3o do que eram as conta\u00e7\u00f5es de hist\u00f3rias em torno de fogueira. \u201cN\u00f3s n\u00e3o temos como acender uma fogueira, mas acendemos uma velinha simb\u00f3lica ali, para que a hist\u00f3ria aconte\u00e7a em volta do fogo\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pedagogia Waldorf s\u00f3 apareceu na vida de Lu quando ela, rec\u00e9m formada professora, viu-se numa situa\u00e7\u00e3o em que seu filho, de 11 meses, chorava todos os dias na escola. \u201cE eu comentava com a dona da escola que n\u00f3s dever\u00edamos estar fazendo alguma coisa errada. Era para as crian\u00e7as estarem felizes!\u201d, conta. Foi por meio de uma colega cuja filha estudava num col\u00e9gio Waldorf que Lu conheceu a linha de pensamento: \u201c\u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o com os brinquedos, com o brincar, com a alimenta\u00e7\u00e3o, com o ritmo. Isso traz sa\u00fade para as crian\u00e7as\u201d. A pedagogia entende que as crian\u00e7as s\u00e3o sementes a serem semeadas, o que faz das professoras as jardineiras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o tempo, Lu acabou sendo chamada para passar o tempo com crian\u00e7as em casa, quando os pais tinham algum compromisso. \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Na \u00e9poca, h\u00e1 11 anos, isso n\u00e3o era comum. Quer\u00edamos oferecer uma folga, em que os pais pudessem passear, estudar, fazer um curso ou s\u00f3 dormir\u201d. Da\u00ed veio o nome do servi\u00e7o que ela oferece hoje: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Pa\u00eds de Folga!<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. \u201cLogo, come\u00e7ou uma demanda por festas e por eventos. Come\u00e7amos com um trabalho de oficina, resgatando brincadeiras tradicionais, de quintal, t\u00edpicas da inf\u00e2ncia\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A pedagogia Waldorf foi criada por Rudolf Steiner (Cro\u00e1cia, 1861-1925), e \u00e9 proposta para atender a todos os p\u00fablicos, n\u00e3o s\u00f3 crian\u00e7as: \u201cE s\u00e3o sempre momentos de contra\u00e7\u00e3o e de expans\u00e3o. Cada vez que contamos uma hist\u00f3ria, a crian\u00e7a est\u00e1 num momento de contra\u00e7\u00e3o. Depois, quando deixamos os brinquedos para eles brincarem, eles podem relaxar e respirar com mais tranquilidade\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Na caneta do autor: estrat\u00e9gias de sempre, no hoje.<\/b><\/p>\n<figure id=\"attachment_1974\" aria-describedby=\"caption-attachment-1974\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-1974\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pedro-bandeira-300x200.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pedro-bandeira-300x200.webp 300w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pedro-bandeira.webp 675w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1974\" class=\"wp-caption-text\">Pedro Bandeira (foto) \u00e9 escritor de livros infanto-juvenis \u2014 Imagem\/Reprodu\u00e7\u00e3o: Instagram @eupedrobandeira<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Indagado a respeito da import\u00e2ncia da constru\u00e7\u00e3o de personagens identific\u00e1veis no universo da literatura infantil, Pedro Bandeira explica que, diferentemente dos adultos, que j\u00e1 t\u00eam a capacidade de se identificarem com personagens completamente diferentes deles, as crian\u00e7as ainda se veem nas narrativas: \u201c\u00c9 por isso que eu quero saber como \u00e9 uma crian\u00e7a de cinco anos: para poder falar algo que interesse a ela, que fa\u00e7a parte do mundo dela ou da maneira de ela pensar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para explicar seu trabalho, escritor fala sobre a import\u00e2ncia de saber quando a crian\u00e7a chega \u00e0 idade da lat\u00eancia, que para Monteiro Lobato (1882-1948), \u00e9 o per\u00edodo entre a inf\u00e2ncia e a pr\u00e9-adolesc\u00eancia, dos sete aos nove anos: \u201c\u00c9 um per\u00edodo de solid\u00e3o: a menina enfileira as bonecas, d\u00e1 aula para elas, faz anivers\u00e1rio delas\u2026ela vive da imagina\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que Lobato fez uma menina vivendo de sua imagina\u00e7\u00e3o (Narizinho)\u201d. Ele traz outro exemplo pr\u00e1tico da import\u00e2ncia da identifica\u00e7\u00e3o: \u201cQuando voc\u00ea chega para uma crian\u00e7a e diz: \u2018Vou contar uma hist\u00f3ria: a Dona Galinha chegou assim para o Pintinho e falou\u2026\u2019.\u00a0 Imediatamente ela passa a Dona Galinha como a m\u00e3e dele e o pintinho como ele\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O processo descrito por Bandeira nada mais \u00e9 do que o amadurecimento emocional da crian\u00e7a por meio da arte. Ao citar o livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A Marca de uma L\u00e1grima<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, escrito por ele em 1985, ele comenta que a hist\u00f3ria \u00e9 baseada na pe\u00e7a de teatro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Cyrano de Bergerac<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (1897), de Edmond Rostand (1868-1918) e no quadro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Garota Diante do Espelho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (1932), de Pablo Picasso (1881-1973). \u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 um quadro fant\u00e1stico: tem uma mo\u00e7a se olhando e a imagem dela \u00e9 toda ruim, toda feia. Ent\u00e3o eu imagino algu\u00e9m sem autoestima, que se olha no espelho e n\u00e3o se v\u00ea como realmente \u00e9, mas como acha que deveria ser. \u00c9 uma coisa importante de se trabalhar, principalmente na adolesc\u00eancia\u201d. Ao final da hist\u00f3ria, a menina acaba se entendendo e se gostando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele ainda tr\u00e1s um \u00faltimo exemplo: \u201cVoc\u00ea pode colocar uma crian\u00e7a de tr\u00eas anos no colo e contar a terr\u00edvel hist\u00f3ria de Jo\u00e3o e Maria. A crian\u00e7a fica quase fazendo xixi na fraldinha, imagine ser abandonada por papai e mam\u00e3e na floresta! E ela treme com isso. Mas ela est\u00e1 no colinho da mam\u00e3e, quentinha, Ela sabe que n\u00e3o vai acontecer isso com ela\u201d. O autor explica que isso \u00e9 o trabalho do sentimento de abandono quando pequeno. \u201cTudo o que voc\u00ea tem \u00e9 papai e mam\u00e3e. Ent\u00e3o, o seu pavor maior \u00e9 n\u00e3o ter mais papai e mam\u00e3e. Ent\u00e3o, uma hist\u00f3ria de abandono \u00e9 terr\u00edvel para trabalhar esse sentimento original\u201d. Com o passar do tempo, ele conta, a crian\u00e7a at\u00e9 pede para a m\u00e3e contar a hist\u00f3ria de novo, mesmo que tenha tido medo. \u201cAt\u00e9 que chega o momento em que ela n\u00e3o quer mais, porque o problema dela j\u00e1 foi resolvido: \u2018n\u00e3o serei abandonado por papai e mam\u00e3e\u2019\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Bandeira finaliza recapitulando obras hist\u00f3ricas da literatura que n\u00e3o perderam seu papel liter\u00e1rio: Shakespeare tem mais de quatrocentos\u00a0 anos de idade e at\u00e9 hoje as pe\u00e7as dele s\u00e3o insubstitu\u00edveis. Por qu\u00ea? Porque ele tratou de sentimentos: ele tratou do amor imposs\u00edvel, ele tratou do ci\u00fame, ele tratou da cobi\u00e7a, ele tratou da felicidade abandonada. Cada pe\u00e7a dele trata de uma emo\u00e7\u00e3o humana. Isso n\u00e3o morre\u201d. Dom Quixote (personagem de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Dom Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, 1605) \u00e9 outro exemplo atemporal: \u201cPor que Dom Quixote \u00e9 aquele velho maluco? Ser\u00e1 que ele n\u00e3o pode representar um idoso de hoje em dia, que tem dificuldades em mexer no celular? O tempo dele passou, e ele n\u00e3o entendia as novidades, o progresso. Ele fala sobre a velhice em qualquer \u00e9poca, n\u00e3o s\u00f3 no s\u00e9culo 17, como em qualquer \u00e9poca\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como lembra a cita\u00e7\u00e3o final de \u201cOs Fazedores de Sonhos\u201d, hist\u00f3ria do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Noites Iluminadas: Hist\u00f3rias para ler na hora de dormir que estimulam a calma, a confian\u00e7a e a criatividade em seu filho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, a leitura \u00e9 insubstitu\u00edvel no fomento da imagina\u00e7\u00e3o por demandar uma posi\u00e7\u00e3o afetiva das crian\u00e7as, mesmo quando ouvem hist\u00f3rias:<\/span><\/p>\n<blockquote><p><em><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u2014 Esse sonho \u00e9 s\u00f3 seu \u2014 diz uma das crian\u00e7as \u2014 Pule em cima dele e v\u00e1 aonde quiser\u201d<\/span><\/em><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entre a magia da leitura e a realidade desigual, a conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias e o faz-de-conta permanecem imbat\u00edveis &#8211; por Ricardo Thom\u00e9\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1968\"> <\/a>","protected":false},"author":138,"featured_media":1975,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[590],"tags":[679,195,678,680,673,675,674,676,677],"class_list":["post-1968","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-babel-2025-ed-junho","tag-contacaodehistorias","tag-cultura","tag-fazdeconta","tag-leiacomumacrianca","tag-leitura","tag-leituraparabebes","tag-leituraparacriancas","tag-literaturadeberco","tag-pedagogiawaldorf"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - 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