{"id":188,"date":"2020-06-21T14:43:00","date_gmt":"2020-06-21T17:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/?p=188"},"modified":"2020-09-30T10:43:15","modified_gmt":"2020-09-30T13:43:15","slug":"ascensao-historia-e-queda-dos-calcados-joaquinenses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=188","title":{"rendered":"Ascens\u00e3o, hist\u00f3ria e queda dos cal\u00e7ados joaquinenses"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00e3o Joaquim da Barra n\u00e3o \u00e9 uma cidade grande. Tem gente que a classifica como interior de Franca, que por sua vez \u00e9 interior de Ribeir\u00e3o Preto, que por fim \u00e9 interior de S\u00e3o Paulo. Ao mesmo tempo, ela n\u00e3o \u00e9 uma daquelas cidades min\u00fasculas que mal existem nos mapas. Ela \u00e9 pequena, mas nem tanto. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o chega a ser uma cidade que as pessoas reconhecem pelo nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 exatamente o meio termo. Segundo a classifica\u00e7\u00e3o do IBGE, para ser considerada uma cidade pequena, ela deve ter menos de 50 mil habitantes. Acima disso, j\u00e1 \u00e9 considerada m\u00e9dia-pequena. S\u00e3o Joaquim da Barra, no entanto, \u00e9 casa de exatamente 50 mil pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como toda cidade relativamente pequena, ela se orgulha de ter algumas caracter\u00edsticas not\u00f3rias. \u00c9 cidade natal da apresentadora Ana Maria Braga, sede da anual Festa da Soja, casa dos deliciosos doces Somel e j\u00e1 foi ber\u00e7o dos melhores cal\u00e7ados do interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ascens\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o t\u00edtulo de capital dos cal\u00e7ados \u00e9 de Franca, a maior produtora da Am\u00e9rica Latina. H\u00e1 apenas 60 quil\u00f4metros de S\u00e3o Joaquim da Barra, a cidade abriga mais de mil f\u00e1bricas de sapatos. Mas antes de Franca produzir para marcas como Carmen Steffens e Democratas, a vizinha desconhecida j\u00e1 tinha feito hist\u00f3ria com as f\u00e1bricas familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o Joaquim teve essa aptid\u00e3o cal\u00e7adista antes de Franca. Tinha a fam\u00edlia Estores, fam\u00edlia Sostena, fam\u00edlia Mauad, Tobias e a nossa, os Rossini&#8221;, diz Fid\u00e9lis. Ele \u00e9 morador da cidade e recebe o mesmo nome do av\u00f4, que consertava sapatos em casa na d\u00e9cada de 1910.<\/p>\n\n\n\n<p>Fedeli Rossini foi um imigrante italiano que chegou ao Brasil em 1897. Vindos de uma comuna com pouco mais de 700 habitantes na It\u00e1lia, sua fam\u00edlia escolheu um pequeno povoado para morar. Na \u00e9poca, o vilarejo n\u00e3o recebia o nome de S\u00e3o Joaquim da Barra &#8211; t\u00edtulo que s\u00f3 foi se consolidar em 1944.<\/p>\n\n\n\n<p>O of\u00edcio de sapateiro se consolidou de maneira informal para Fedeli &#8211; ingressar em uma universidade n\u00e3o passava de um conceito distante para os moradores do interior. Ele era profissional de conserto no pa\u00eds natal e tinha um encanto especial por consertar solas de sapato. Ele viu a oportunidade de continuar o trabalho dentro pr\u00f3pria casa. &#8220;Naquela \u00e9poca os sapatos duravam muitos anos, e as pessoas conservavam. Era dif\u00edcil ganhar dinheiro para comprar sapato igual a gente compra hoje&#8221;, diz o neto.<\/p>\n\n\n\n<p>O filho de Fedeli, Adolfino Rossini, aprendeu bem o ganha-p\u00e3o do pai. Ele foi trabalhar como oper\u00e1rio para os Mauad, uma das fam\u00edlias joaquinenses que j\u00e1 tinha visto a oportunidade de abrir uma f\u00e1brica de cal\u00e7ados. L\u00e1, ele aperfei\u00e7oou ainda mais o of\u00edcio. Para ele, pr\u00f3ximo passo era claro: construir a pr\u00f3pria marca de cal\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi na rua da Pra\u00e7a Sete de Setembro, n\u00famero 34, que nasceram os Cal\u00e7ados Rossini. A confec\u00e7\u00e3o e loja funcionavam dentro da casa da fam\u00edlia. Na frente, ficava (e ainda fica) a igreja matriz da cidade, o que garantia um bom movimento na regi\u00e3o. At\u00e9 hoje, os entornos da pra\u00e7a resumem o centro de S\u00e3o Joaquim da Barra.<\/p>\n\n\n\n<p>Adolfino montou a marca com os tr\u00eas irm\u00e3os, dois de sangue e um posti\u00e7o. Todos os moldes de sapatos eram esculpidos a m\u00e3o com base em desenhos de revistas. O cal\u00e7ado tamb\u00e9m podia ser encomendado sob medida, atendendo os pedidos dos homens que usavam n\u00fameros fora do normal. &#8220;Meu pai fazia uns sapatos gigantes. Ele falava que era n\u00famero 47, mas tinha cara de uns 57&#8221; diz Maria Rita, filha do sapateiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da loja, eles deram um passo al\u00e9m. A falecida rede de bancos Nossa Caixa instituiu um programa de financiamento que permitiu os irm\u00e3os construirem uma f\u00e1brica ainda maior, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950. O maquin\u00e1rio foi todo importado da Alemanha e It\u00e1lia, e, com mais de 100 funcion\u00e1rios, dava conta de produzir 350 pares de cal\u00e7ados por dia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por dentro da f\u00e1brica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fid\u00e9lis, filho mais novo de Adolfino, ainda consegue desenhar o emblema da marca de cal\u00e7ados. Em um guardanapo de papel, ele mostra o R grande e bem caligrafado seguido pelo sobrenome da fam\u00edlia. &#8220;De vez em quando, o meu tio deixava eu pegar um peda\u00e7o de sola ou de couro para passar na m\u00e1quina e fazer furinhos. Eu era moleque, gostava de brincar com isso&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Fid\u00e9lis n\u00e3o chegou a trabalhar na f\u00e1brica, mas n\u00e3o era raro ver jovens ajudando na montagem. &#8220;Hoje n\u00e3o tem mais isso, mas antigamente as crian\u00e7as tinham que aprender o of\u00edcio da fam\u00edlia&#8221;, conta. Na \u00e9poca, \u00e9 bom lembrar, ainda n\u00e3o havia legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica sobre trabalho infantil. O Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente s\u00f3 seria criado d\u00e9cadas depois, em 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Os materiais recebidos na f\u00e1brica eram cortados e seguiam para a montagem de acordo com os moldes. As solas eram lixadas e juntadas ao sapato usando pregos, cada um martelado individualmente. A t\u00e9cnica tornava os cal\u00e7ados extremamente dur\u00e1veis, mas nem um pouco confort\u00e1veis. Um par de botinas infantis sobreviveu at\u00e9 2020 &#8211; um pouco desbotadas e encardidas, mas totalmente utiliz\u00e1veis. O couro e a sola, no entanto, s\u00e3o t\u00e3o r\u00edgidos que fariam calos em qualquer crian\u00e7a que ousasse experiment\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada f\u00e1brica de S\u00e3o Joaquim da Barra tinha sua especialidade. O fabricante Jos\u00e9 Tobias era chamado de &#8220;o maioral&#8221; dos suspens\u00f3rios, cintos e artefatos de couro. As Sand\u00e1lias Tobias faziam cal\u00e7ados delicados com perfei\u00e7\u00e3o. Para os Rossini, o equivalente eram as botinas.<\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00e1brica fazia apenas cal\u00e7ados masculinos. Eles podiam ser sapatos sociais ou &#8220;de servi\u00e7o&#8221;, como eram chamadas as botinas. Os primeiros eram para cavalheiros que passavam mais tempo na cidade, enquanto os segundos eram direcionados aos trabalhadores das lavouras, o que justifica a rigidez das botas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao passar pelas etapas de acabamento e retoque, os dois tipos de sapatos iam em embalagens diferentes. Os cal\u00e7ados sociais eram entregues em caixas brancas e requintadas, com o emblema da marca estampado no topo. Os de servi\u00e7o n\u00e3o recebiam o mesmo refinamento &#8211; eles eram embrulhados em um papel\u00e3o grosso, selado com apenas um adesivo para segurar as pontas.<\/p>\n\n\n\n<p>O maior orgulho de Adolfino, no entanto, era atender os clientes individualmente. Ele era um dos \u00fanicos da regi\u00e3o que fazia cal\u00e7ados sob medida para deficientes. &#8220;Ele fazia todas as formas e os moldes, n\u00e3o era simples. Tinha um homem em S\u00e3o Joaquim que s\u00f3 tinha um toco no lugar do p\u00e9, na sequ\u00eancia do calcanhar. Meu pai fazia sapato pra ele. Todas as pessoas deficientes da regi\u00e3o iam l\u00e1 pra ele fazer. Ele tirava a medida, desenhava o p\u00e9 da pessoa, fazia a forma e o cal\u00e7ado. E quando ela precisasse de outro sapato, ele j\u00e1 tinha a forma e fazia o novo&#8221;, conta Maria Rita. &#8220;Isso tudo sem nem ter feito faculdade. Acho que ele teria dado um bom engenheiro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um document\u00e1rio sobre a cidade filmado em 1954 classifica os Cal\u00e7ados Rossini como &#8220;um dos melhores do Brasil&#8221;. Os s\u00f3cios transportavam os sapatos para lojas em S\u00e3o Paulo, Goi\u00e2nia, Rio de Janeiro e outras cidades da regi\u00e3o. &#8220;Meu tio levava uma kombi lotada pra S\u00e3o Paulo uma vez por semana, ou ent\u00e3o eles iam de transportadora e trem para os outros lugares&#8221;, conta Fid\u00e9lis.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte da publicidade era na base do boca a boca. A primeira revista editada na cidade apresentava a seguinte propaganda: \u201cCal\u00e7ados Rossini \u2013 Fabrica-se todo tipo de cal\u00e7ado, sob medida. Pre\u00e7os m\u00f3dicos \u2013 especialista nas afamadas Botas Rossini\u201d. Um dos poucos an\u00fancios f\u00edsicos da f\u00e1brica ficava estampado em um dos bancos da Pra\u00e7a Sete de Setembro. Hoje, ele foi removido do espa\u00e7o p\u00fablico e enfeita o quintal de uma das netas de Adolfino.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1965, a cidade j\u00e1 comportava 26 f\u00e1bricas de sapato. Entre 1940 e 1960, S\u00e3o Joaquim da Barra aumentou sua produ\u00e7\u00e3o industrial em 841%, segundo dados do IBGE. Ela poderia ter se tornado refer\u00eancia em produ\u00e7\u00e3o de cal\u00e7ados no Brasil, mas n\u00e3o foi o que aconteceu; e os mesmos motivos que levaram ao &#8220;boom cal\u00e7adista&#8221; foram respons\u00e1veis por sua derrota.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>In\u00edcio do fim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os sapatos da regi\u00e3o eram de qualidade, vendidos por um pre\u00e7o justo e bastante conhecidos. De acordo com os moradores, os cal\u00e7ados joaquinenses eram vendidos em todo o centro-oeste do Brasil na d\u00e9cada de 1960. &#8220;Nos bares, nos bancos, nas festas, quase sempre as conversas acabavam girando em torno dos cal\u00e7ados&#8221;, conta uma cr\u00f4nica sobre a cidade. Tudo que qualquer marca almeja conquistar.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que as f\u00e1bricas nasceram em fam\u00edlia &#8211; e come\u00e7aram a desandar por motivos familiares tamb\u00e9m. Mesmo quando os cal\u00e7ados estavam no auge, a administra\u00e7\u00e3o financeira j\u00e1 n\u00e3o andava bem. Se hoje as empresas contam com departamento financeiro, assessorias e marketing, naquela \u00e9poca era na base da confian\u00e7a e muita l\u00e1bia. &#8220;Tomava-se muito cano. N\u00e3o tinha essas cobran\u00e7as certinhas. Tinha que buscar o cheque l\u00e1 do revendedor ou receber em dinheiro&#8221;, diz Fid\u00e9lis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo quando o dinheiro entrava, nada garantia que ele seria bem usado. Al\u00e9m de Adolfino, os outros s\u00f3cios dos Cal\u00e7ados Rossini eram Osvaldo, Romualdo e Argeu. Os dois primeiros era irm\u00e3os de sangue, enquanto o terceiro era filho de uma funcion\u00e1ria que trabalhava na casa, que acabou casando com o patriarca da fam\u00edlia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A divis\u00e3o da receita era igual entre os s\u00f3cios, mas faltou separar o pessoal do administrativo. Como em toda fam\u00edlia, a sensa\u00e7\u00e3o de competi\u00e7\u00e3o estava sempre presente. Rita conta a perspectiva pela vis\u00e3o das mulheres da fam\u00edlia: &#8220;O que uma fam\u00edlia tinha, a outra tinha que ter tamb\u00e9m. Se chegava uma geladeira nova no mercado, tinha que comprar pra todas as esposas dos s\u00f3cios. Com m\u00e1quina de roupa era a mesma coisa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o haveria problema se o dinheiro sa\u00edsse das contas banc\u00e1rias dos s\u00f3cios, mas n\u00e3o era o que acontecia. Tudo era comprado \u00e0s custas da f\u00e1brica. &#8220;N\u00e3o tinha uma retirada mensal, uma coisa certa. A gente comprava as coisas e mandava cobrar na loja. Meus tios iam pra S\u00e3o Paulo, ficavam em hotel, tinham v\u00e1rios gastos extras&#8221;, conta Rita.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00e1lcool era a \u00faltima gota que faltava para o desastre. O h\u00e1bito de beber depois do expediente \u00e9 uma daquelas pr\u00e1ticas que nunca mudam. Os bares e botecos da cidade pequena recebiam tanto os funcion\u00e1rios quanto os s\u00f3cios quase todas as noites. Os nervos aumentavam, a discuss\u00e3o ficava acalorada e era confus\u00e3o na certa. &#8220;Foi a pior coisa que j\u00e1 inventaram. Se eu pudesse, eu estourava tudo quanto \u00e9 garrafa de bebida que eu visse pela frente&#8221;, diz a filha de Adolfino.<\/p>\n\n\n\n<p>A bebida potencializava personalidades que j\u00e1 eram dif\u00edceis de lidar. Em S\u00e3o Joaquim da Barra, poucas pessoas reconhecem o nome Adolfino Rossini, mas todos sabem quem foi o seu Briguela. Era o apelido de Adolfino, justamente por causa de seu g\u00eanio forte, severo e briguento. A fama era tanta que o apelido acabou por substituir o nome do sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que ele foi o primeiro a sair da sociedade. A situa\u00e7\u00e3o financeira da marca de cal\u00e7ados estava ruim, e as desaven\u00e7as familiares s\u00f3 pioraram as quest\u00f5es. O fundador da f\u00e1brica saiu dos neg\u00f3cios com quase nada: uma kombi e notas promiss\u00f3rias dos outros s\u00f3cios, que deveriam pagar as d\u00edvidas ao irm\u00e3o quando o cen\u00e1rio financeiro melhorasse. A kombi voltou a ser emprestada \u00e0 f\u00e1brica e jamais foi devolvida. As promiss\u00f3rias, nunca pagas, est\u00e3o at\u00e9 hoje nas gavetas do escrit\u00f3rio de Fid\u00e9lis.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia de Briguela, incluindo Fid\u00e9lis, Rita e outros filhos, morava na mesma casa que abrigava a loja dos Rossini. Com a sa\u00edda do pai da administra\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as viram as portas de casa serem lacradas com ripa madeira e prego. N\u00e3o havia mais acesso para a loja. Ela continuava funcionando na parte da frente do im\u00f3vel, mas agora a fam\u00edlia precisava entrar pelos fundos da casa, para n\u00e3o transpor o com\u00e9rcio que j\u00e1 era desafeto do pai. &#8220;N\u00e3o sei se tinha uma conversa de que a loja era usada para outras coisas tamb\u00e9m&#8230; a gente era crian\u00e7a, n\u00e3o ficou sabendo&#8221;, diz Rita, que tinha menos de dez anos na \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja o que for, Briguela queria dist\u00e2ncia de l\u00e1. Depois de uma briga com a esposa de um dos irm\u00e3os (o motivo tamb\u00e9m \u00e9 incerto), ele n\u00e3o colocou mais os p\u00e9s na f\u00e1brica. Ele voltou ao servi\u00e7o de conserto de sapatos para ganhar trocados, mas n\u00e3o era suficiente para sustentar totalmente a fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Anita Rossini \u00e9 uma personagem quase oculta nessa hist\u00f3ria. Enquanto a f\u00e1brica nascia, crescia e come\u00e7ava a decair, a esposa de Briguela observava e trabalhava de dentro de casa, fornecendo o suporte e sustento que a fam\u00edlia precisava. Ela fabricava e vendia cuecas, fazia bordado, comida e, segundo a filha, era &#8220;muito fu\u00e7ada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Era a mulher que provia para a fam\u00edlia quando o pai saiu da f\u00e1brica. Ele perdeu a principal fonte de renda, o que resultou em uma depress\u00e3o profunda. &#8220;Foi uma \u00e9poca muito dif\u00edcil. A gente tinha vergonha de pedir dinheiro pra ele e ele negar. N\u00e3o porque ele n\u00e3o queria, mas porque ele n\u00e3o tinha dinheiro nenhum&#8221;, diz Fid\u00e9lis.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A minha m\u00e3e dizia &#8216;n\u00e3o pede dinheiro pro seu pai n\u00e3o, eu dou dinheiro pra voc\u00eas&#8217;. Ela tinha um avental cheinho. Eu lembro quando chegava domingo e a gente j\u00e1 ia no bolso do avental pra pedir dinheiro. Ela sempre teve&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, os outros s\u00f3cios expandiram os neg\u00f3cios. Abriram uma outra f\u00e1brica, para uma segunda marca de cal\u00e7ados &#8211; dessa vez, sapatos femininos. A marca foi batizada de Cal\u00e7ados Clara, em homenagem \u00e0 m\u00e3e dos irm\u00e3os Rossini. A decis\u00e3o foi uma tentativa de aumentar a receita. Afinal, o mercado feminino costuma ter mais tend\u00eancias do que os simples sapatos &#8220;sociais&#8221; e &#8220;de servi\u00e7o&#8221; masculinos. Eles eram vendidos naquela mesma loja da Pra\u00e7a Sete de Setembro, ao lado dos cal\u00e7ados masculinos, bolsas, carteiras e chap\u00e9us.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse foi o \u00faltimo respiro antes da f\u00e1brica encerrar seus 20 anos de vida. Ela foi \u00e0 fal\u00eancia por volta de 1970. Devia para funcion\u00e1rios, governo e os s\u00f3cios ainda sa\u00edram quebrados. Esse foi o fim de muitas f\u00e1bricas de sapatos joaquinenses, como acontece com milhares de empresas familiares at\u00e9 hoje. A partir da\u00ed, as fam\u00edlias da cidade seguiram rumos diferentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>S\u00e3o Joaquim da Barra, hoje<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 1990, a cidade ainda contava com 40 f\u00e1bricas em funcionamento, mas j\u00e1 n\u00e3o chegava perto da produ\u00e7\u00e3o da vizinha Franca. S\u00e3o Joaquim da Barra n\u00e3o \u00e9 mais vista como refer\u00eancia nacional em fabrica\u00e7\u00e3o de sapatos. Apenas duas f\u00e1bricas daquela \u00e9poca continuam funcionando em 2020: as &#8220;Cria\u00e7\u00f5es Andresa&#8221; e a &#8220;Joal Calcados Ltda&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Fid\u00e9lis, as fam\u00edlias que antes controlavam as f\u00e1bricas foram aos poucos mudando de of\u00edcio. Muitas souberam usar o lucro inicial dos sapatos para investir em grandes fazendas e latif\u00fandios, pagos a longo prazo. Os Mauad, antigos patr\u00f5es do Briguela, hoje controlam boa parte das terras da regi\u00e3o, al\u00e9m de serem donos do Mauad Plaza, principal hotel da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os Rossini, foi um bar e restaurante modesto que tirou o pai da depress\u00e3o e a fam\u00edlia da crise financeira. Anita preparava a comida em um fog\u00e3o a lenha no centro da cozinha. Briguela controlava a parte financeira durante o dia e a filha mais nova, formada em matem\u00e1tica, fechava a conta de noite.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pra\u00e7a Sete de Setembro continua l\u00e1, assim como a igreja matriz e o movimento do centro comercial. Bem na frente dela, encontra-se o primeiro pr\u00e9dio da cidade, coincidentemente constru\u00eddo bem em cima da antiga loja de cal\u00e7ados. No t\u00e9rreo do pr\u00e9dio, hoje encontram-se tr\u00eas ag\u00eancias de bancos: Santander, Ita\u00fa e Banco do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O com\u00e9rcio n\u00e3o \u00e9 o mesmo de 50 anos atr\u00e1s. Hoje, os estabelecimentos mais visitados s\u00e3o uma Lojas Americanas e um supermercado Dia. Quase todas as farm\u00e1cias da cidade s\u00e3o de redes e at\u00e9 um Subway conseguiu um espa\u00e7o pr\u00f3ximo ao centro. No entanto, algumas coisas n\u00e3o mudam. O coreto continua ativo, a sorveteria mais famosa da cidade ainda faz sorvetes caseiros, e talvez voc\u00ea ainda encontre um ou outro morador sentado na pra\u00e7a Sete de Setembro, relembrando a \u00e9poca em que S\u00e3o Joaquim da Barra era conhecida por fabricar alguns dos melhores cal\u00e7ados do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Por Maria Clara Rossini<\/strong><br>mariaclararossini@usp.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"S\u00e3o Joaquim da Barra n\u00e3o \u00e9 uma cidade grande. 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