{"id":1864,"date":"2025-06-30T15:28:01","date_gmt":"2025-06-30T18:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1864"},"modified":"2025-07-02T20:17:59","modified_gmt":"2025-07-02T23:17:59","slug":"a-cada-acorde-um-clique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1864","title":{"rendered":"A cada acorde um clique"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 10pt;\">(Arte: Beatriz Ferreira Sousa)<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Buscamos entender como o h\u00e1bito de gravar shows de m\u00fasica com o celular alterou a maneira como as pessoas experienciam esses eventos<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><strong>Por<\/strong>\u00a0Ana M\u00e9rcia Brand\u00e3o<\/span><\/p>\n<p>Vers\u00e3o em a\u00fadio:<\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: Audiodescri\u00e7\u00e3o - A cada acorde um clique\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/6ZPCI5mdPBc4m3OIuD7jOk?si=Gb-xyA-_R3iswEWojE74lw&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O americano Jonathan Richman, vocalista da banda de rock setentista The Modern Lovers, tocando seu hit solo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">I Was Dancing at The Lesbian Bar<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (1992) em um bar parisiense. Esse foi o primeiro v\u00eddeo de um show que o jornalista e curador musical Alexandre Matias decidiu gravar e publicar em seu autointitulado canal no YouTube, em 8 de maio de 2008. Pelas lentes da c\u00e2mera cybershot tremida de Matias, Richman aparece em um palco escuro em posse de seu viol\u00e3o, acompanhado apenas de um baterista, e arrisca palavras em franc\u00eas no meio da letra da m\u00fasica. Quando chega ao refr\u00e3o, em que canta \u201cEstava dan\u00e7ando em um bar l\u00e9sbico\u201d, um coro de mulheres da plateia se junta \u00e0 can\u00e7\u00e3o. Algum tempo antes, Matias havia percebido que era um dos poucos homens no local. \u201cComecei a me ligar que, na verdade, era uma festa l\u00e9sbica. Pensei: ele vai tocar essa m\u00fasica e eu estou num bar cercado de l\u00e9sbicas. Vou ter que filmar isso\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De l\u00e1 para c\u00e1, 17 anos depois, o canal acumula mais de 4.800 v\u00eddeos, todos de shows de m\u00fasica, inteiros ou em peda\u00e7os. \u201cEu filmei mais por uma coisa pessoal mesmo, n\u00e3o pensando em mostrar para as pessoas, e coloquei no YouTube por colocar. Na \u00e9poca nem existia monetiza\u00e7\u00e3o. O YouTube foi criado em 2005. Isso foi tr\u00eas anos depois. S\u00f3 que eu vi que teve uma repercuss\u00e3o, inclusive, gringa. Com as pessoas: &#8216;Ah, que legal, um cara filmou um show do Jonathan Richman em Paris. Que massa.&#8217; E a\u00ed eu pensei: \u2018Eu vou em um monte de show aqui no Brasil e acho que d\u00e1 para mostrar, n\u00e9?\u2019\u201d O que come\u00e7ou como hobby se tornou quase obriga\u00e7\u00e3o para o paulistano de 50 anos, que, s\u00f3 neste ano de 2025, at\u00e9 o fim de maio, j\u00e1 havia assistido a 94 shows.<\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jonathan Richman - &quot;I Was Dancing in a Lesbian Bar&quot;\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lFjODtuPiVU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O v\u00eddeo de Jonathan Richman postado no canal de Matias<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Criador do blog Trabalho Sujo, voltado \u00e0 cobertura musical, que comanda desde 1995, Matias passou a gravar, na \u00edntegra, todos os shows aos quais assiste a partir de 2017, quando se tornou curador musical do Centro Cultural S\u00e3o Paulo (CCSP) e do Centro da Terra, ambos na capital paulista, e fez um upgrade de sua antiga cybershot para uma c\u00e2mera semiprofissional da Sony, mais leve e com mais espa\u00e7o de armazenamento \u2013 ele diz que odeia gravar com celular. Mesmo longe dos cargos, ele mant\u00e9m o compromisso fiel de filmar tudo, com uma exce\u00e7\u00e3o: \u201cSe o show est\u00e1 ruim, eu paro de filmar. \u00c9 uma l\u00f3gica parecida com a que tenho em rela\u00e7\u00e3o ao meu trabalho como jornalista, prefiro valorizar coisas legais do que ficar dando espa\u00e7o para coisas ruins. Se o show \u00e9 ruim, ent\u00e3o n\u00e3o vai ter registro.\u201d<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_1872\" aria-describedby=\"caption-attachment-1872\" style=\"width: 330px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1872 size-full\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Captura-de-tela-2025-06-23-195048.png\" alt=\"\" width=\"330\" height=\"409\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Captura-de-tela-2025-06-23-195048.png 330w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Captura-de-tela-2025-06-23-195048-242x300.png 242w\" sizes=\"auto, (max-width: 330px) 100vw, 330px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1872\" class=\"wp-caption-text\">Matias e sua c\u00e2mera<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa ideia de registrar e manter um acervo que as pessoas possam acessar \u00e9 o que move o jornalista, que lamenta n\u00e3o ter gravado v\u00e1rios shows antes de 2017. \u201cTamb\u00e9m tenho a rea\u00e7\u00e3o de chegar em casa e rever um show que acabei de ver, seja um show incr\u00edvel, que penso \u2018preciso rever agora\u2019, ou um show em que algu\u00e9m fez uma coisa que deu errado. Porque eu tamb\u00e9m trabalho com dire\u00e7\u00e3o de shows. Ent\u00e3o, tem muito essa coisa de usar o registro para entender o que funciona melhor\u201d, completa. Ele tamb\u00e9m explica que faz quest\u00e3o de n\u00e3o ficar vendo o show pela c\u00e2mera e de segur\u00e1-la de um modo que n\u00e3o atrapalhe a vis\u00e3o do resto do p\u00fablico. Perguntado se, \u00e0s vezes, faz o exerc\u00edcio proposital de assistir a um show sem gravar, Matias \u00e9 categ\u00f3rico: n\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cEu tenho um dilema futuro, que \u00e9 quando \u00e9 que eu vou parar. Porque a\u00ed cai num neg\u00f3cio que \u00e9 quase um v\u00edcio mesmo. Sei l\u00e1, d\u00e1 pau na bateria no meio do show, ou a c\u00e2mera n\u00e3o liga na hora, me d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o que \u00e9 como se eu tivesse ficado sem fumar um cigarro. [E a\u00ed voc\u00ea acaba n\u00e3o conseguindo aproveitar o show], por conta dessa ansiedade, porque n\u00e3o estava filmando.\u201d<\/span><\/p>\n<p><b>Rostos por telas<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Hobby virou trabalho, que pode estar se tornando v\u00edcio. Se o jornalista faz quest\u00e3o de gravar com c\u00e2mera, para a maioria do p\u00fablico, basta um smartphone. A epidemia de pessoas levantando celulares para gravar shows \u00e9 tanta que chamou a aten\u00e7\u00e3o da pesquisadora Josil\u00e9ia Kieling. Em 2019, ela defendeu sua <\/span><a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/197354\"><span style=\"font-weight: 400;\">disserta\u00e7\u00e3o de mestrado<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\"> em Comunica\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o pelo Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS) justamente sobre esse tema. \u201cTamb\u00e9m sou fot\u00f3grafa. Quando vou fotografar shows, n\u00e3o tenho rea\u00e7\u00e3o de f\u00e3 para registrar, s\u00f3 vejo celular\u201d, diz. Foi da\u00ed que surgiu a ideia para o trabalho, intitulado <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Experi\u00eancia do show de rock transformada pelo uso de smartphones: um estudo da turn\u00ea Us + Them de Roger Waters em Porto Alegre<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Josi explica que o que, historicamente, atrai as pessoas para um show \u00e9 a banda, os f\u00e3s e o local, segundo o autor Daniel Hopper. H\u00e1 um senso de comunidade e atmosfera \u00fanica que s\u00e3o criados naquele espa\u00e7o. A gra\u00e7a est\u00e1 na atmosfera compartilhada. Mas, com o celular, a experi\u00eancia que era interna, pode se tornar externa. \u201cO celular, estando nessa equa\u00e7\u00e3o, pode desvincular da experi\u00eancia e causar um desfoco de aten\u00e7\u00e3o\u201d, resume a pesquisadora, formada em Comunica\u00e7\u00e3o Social, com habilita\u00e7\u00e3o em Publicidade e Propaganda, pela UFRGS. Se esse senso de comunidade \u00e9 quebrado com o smartphone, o pr\u00f3prio aparelho oferece um atrativo diferente para estar l\u00e1, segundo o texto de Kieling: a possibilidade de gravar instantaneamente o pr\u00f3prio show, de ter uma esp\u00e9cie de lembran\u00e7a do que viveu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para realizar a disserta\u00e7\u00e3o, a ga\u00facha fez uma pesquisa de campo no show de Roger Waters, ex-l\u00edder da banda brit\u00e2nica Pink Floyd, entrevistou uma s\u00e9rie de pessoas antes, durante e ap\u00f3s o evento e, cerca de 45 dias ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o, conversou, em profundidade, com seis espectadores que havia entrevistado, de idades variando entre 18 e 62 anos. \u201cO que era mais comum entre os participantes \u00e9 eles buscarem um registro a partir do pr\u00f3prio \u00e2ngulo de vis\u00e3o deles\u201d, conta.<\/span><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_1867\" aria-describedby=\"caption-attachment-1867\" style=\"width: 2560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1867 size-full\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Ana-Mercia-Brandao-1-scaled.jpeg\" alt=\"\" width=\"2560\" height=\"1923\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Ana-Mercia-Brandao-1-scaled.jpeg 2560w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Ana-Mercia-Brandao-1-300x225.jpeg 300w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Ana-Mercia-Brandao-1-1022x768.jpeg 1022w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Ana-Mercia-Brandao-1-768x577.jpeg 768w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Ana-Mercia-Brandao-1-1536x1154.jpeg 1536w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Ana-Mercia-Brandao-1-2048x1539.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1867\" class=\"wp-caption-text\">P\u00fablico grava show da cantora islandesa Laufey, em show em S\u00e3o Paulo em 2025 [cr\u00e9dito Ana M\u00e9rcia Brand\u00e3o]<\/figcaption><\/figure><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1, tamb\u00e9m, a vontade de compartilhar, tanto para mostrar que viveu, quanto para trazer os entes queridos para aquele momento. Uma das entrevistadas gravou o show inteiro e disse que havia reassistido \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o com o namorado duas vezes at\u00e9 o momento da entrevista \u2013 o parceiro n\u00e3o estava no show com ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um entrevistado relata uma experi\u00eancia no show do U2, em 2006, na Argentina, em que, em uma \u00e9poca em que celulares ainda eram itens de luxo, o p\u00fablico acendia o isqueiro para iluminar o espa\u00e7o em uma determinada m\u00fasica. \u201cCom o celular, as pessoas est\u00e3o mais conectadas com o mundo l\u00e1 fora. E sem o celular, as pessoas est\u00e3o mais conectadas entre elas, ali dentro. \u00c9 isso que eu sinto\u201d, disse o homem de 37 anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o nativas digitais t\u00eam mais material para comparar como era antes e como \u00e9 agora. \u201cL\u00e1 fora n\u00e3o \u00e9 todo mundo que filma como aqui\u201d, pontua Marco Antonio Mallagoli. \u201c\u00c0s vezes levantam o celular por 1 minuto de m\u00fasica, mas n\u00e3o \u00e9 o show todo como aqui.\u201d Ele tem propriedade para falar: criador do f\u00e3 clube Revolution, dedicado aos Beatles, desde 1979, o homem de 72 anos diz que j\u00e1 assistiu cerca de 150 shows de Paul McCartney. Ele foi a todos que o eterno garoto de Liverpool fez no Brasil e mais outros muitos em pa\u00edses como Estados Unidos, Inglaterra e Irlanda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c\u00c9 uma emo\u00e7\u00e3o muito forte. Eu choro a maior parte do show. Vejo o show dele como se fosse o show dos Beatles que eu nunca tive chance de assistir. E cada show \u00e9 diferente\u201d, explica. De todos, nunca gravou nenhum, bem como de nenhum outro artista que j\u00e1 teve a chance de ver performar. \u201cGosto de prestar aten\u00e7\u00e3o no show. N\u00e3o tiro nem foto. N\u00e3o preciso provar para ningu\u00e9m que eu estive ali. Eu sei o que vi. Isso, para mim, \u00e9 suficiente. Acho que as pessoas que ficam filmando est\u00e3o perdendo o show. Porque a emo\u00e7\u00e3o na hora \u00e9 muito maior do que o filme que voc\u00ea vai fazer no celular para assistir depois. Fora que, logo, logo, aparece um DVD daquela mesma apresenta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/span><\/p>\n<p><figure id=\"attachment_1869\" aria-describedby=\"caption-attachment-1869\" style=\"width: 1080px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1869 size-full\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Arquivo-Pessoal-1.jpeg\" alt=\"\" width=\"1080\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Arquivo-Pessoal-1.jpeg 1080w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Arquivo-Pessoal-1-300x300.jpeg 300w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Arquivo-Pessoal-1-768x768.jpeg 768w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Arquivo-Pessoal-1-150x150.jpeg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1869\" class=\"wp-caption-text\">Marco com Paul [cr\u00e9dito Arquivo Pessoal\/Marco Mallagoli]<\/figcaption><\/figure><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, com o celular quase como uma parte do corpo humano, mesmo para quem n\u00e3o trabalha com isso, como Matias, gravar se tornou quase obriga\u00e7\u00e3o. \u201cMuitos entrevistados relataram a ansiedade de saber que poderia estar registrando mas querer assistir o show\u201d, conta Josi. E se a bateria descarrega, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de al\u00edvio: \u201cAgora n\u00e3o vou mais ter essa ansiedade, se eu registro ou n\u00e3o registro, porque n\u00e3o tenho como fazer isso.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para Matias, travar uma batalha com o celular \u00e9 uma briga perdida. \u201c\u00c9 uma coisa da realidade que a gente vive hoje. N\u00e3o tem como fugir muito disso. As pessoas gravam tudo o tempo todo. A gente tem uma c\u00e2mera no bolso que est\u00e1 ali pronta para filmar um acidente, uma brincadeira que o filho fez, uma piadinha com um amigo.\u201d<\/span><\/p>\n<p><b>A necessidade vira grana<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A profus\u00e3o de celulares no dia a dia fez os seres humanos se adaptarem. O americano Graham Dugoni, por exemplo, achou um jeito novo de fazer dinheiro: prometendo livrar as pessoas de seus celulares, pelo menos por algumas horas. \u201cCelulares mudaram fundamentalmente as performances ao vivo. Artistas olham para um mar de smartphones no lugar de rostos e o p\u00fablico est\u00e1 mais preocupado em gravar do que realmente engajar [com as performances]\u201d. Esse \u00e9 um trecho de um texto de divulga\u00e7\u00e3o do site da Yondr, a empresa criada por Dugoni, em 2014, que fornece \u201cespa\u00e7os livres de celulares\u201d. Com atua\u00e7\u00e3o em escolas, universidades, apresenta\u00e7\u00f5es de com\u00e9dia e casamentos, a marca chegou, tamb\u00e9m, aos shows de m\u00fasica \u2013 e tem o aval de clientes famosos, como Bob Dylan.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos \u00faltimos anos, o m\u00fasico vencedor do Nobel de Literatura tem proibido celulares em seus shows e utiliza do mecanismo criado por Dugoni para garantir que a norma seja cumprida. Ao chegar no local do show, o p\u00fablico deve colocar os aparelhos dentro das bolsas Yondr. Elas, ent\u00e3o, s\u00e3o travadas e s\u00f3 s\u00e3o destravadas na sa\u00edda, ou nas \u00e1reas permitidas do espa\u00e7o, quando o p\u00fablico deve coloc\u00e1-las em uma base de destravamento para liberar o aparelho. Como Dylan, artistas como a banda de rock progressivo King Crimson e a banda de metal Ghost j\u00e1 proibiram celulares em suas apresenta\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1871\" src=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Yondr-Divulgacao.jpeg\" alt=\"\" width=\"2500\" height=\"1170\" srcset=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Yondr-Divulgacao.jpeg 2500w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Yondr-Divulgacao-300x140.jpeg 300w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Yondr-Divulgacao-1366x639.jpeg 1366w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Yondr-Divulgacao-768x359.jpeg 768w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Yondr-Divulgacao-1536x719.jpeg 1536w, https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/credito-Yondr-Divulgacao-2048x958.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2500px) 100vw, 2500px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A bolsa Yondr <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">[cr\u00e9dito Divulga\u00e7\u00e3o]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Do outro lado da moeda, h\u00e1 artistas que passaram a incorporar as telas nas performances. \u201cRecentemente, fui num show que, quando o artista viu a pessoa filmando o show dele, ele pegou o celular da pessoa, se filmou cantando pelo celular, filmou a galera, o show e devolveu o celular. Ent\u00e3o, ele criou um registro mais \u00fanico ainda para aquele espectador\u201d, diz Josi. Matias cita o caso da cantora espanhola Rosal\u00eda, no festival Lollapalooza Brasil, em 2023. \u201cEla transformou a ideia da c\u00e2mera no celular como parte do espet\u00e1culo dela\u201d, diz. No show, Rosal\u00eda era acompanhada por um cinegrafista de cima do palco, e tinha a sua disposi\u00e7\u00e3o celulares colocados em pontos estrat\u00e9gicos do espa\u00e7o, com os quais se filmava em momentos-chave, que eram transmitidos em um grande tel\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Josil\u00e9ia foi em um show de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, em S\u00e3o Paulo, no dia 30 de mar\u00e7o de 2018, sem bolsas Yondr, mas em que era proibido filmar. \u201cAt\u00e9 eu experienciei essa vontade de querer filmar. S\u00f3 essa ansiedade de \u2018nossa, preciso registrar\u2019 j\u00e1 est\u00e1 te tirando da experi\u00eancia, voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 atravessado por outro pensamento que n\u00e3o \u00e9 o show em si. Temos celular a, relativamente, pouco tempo, mas olha a cultura impregnada que se tornou. Para ver se os impactos s\u00e3o positivos ou negativos, ainda temos que ter muitas an\u00e1lises\u201d. Em um mundo em que espa\u00e7os livres de celular s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o, gravar virou cultura.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Buscamos entender como o h\u00e1bito de gravar shows de m\u00fasica com o celular alterou a maneira como as pessoas experienciam esses eventos &#8211; Por Ana M\u00e9rcia Brand\u00e3o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=1864\"> <\/a>","protected":false},"author":138,"featured_media":1865,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[590],"tags":[616,195,324,617,619,618],"class_list":["post-1864","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-babel-2025-ed-junho","tag-celulares","tag-cultura","tag-musica","tag-shows","tag-smartphones","tag-video"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A cada acorde um clique - 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