{"id":182,"date":"2020-06-21T16:13:26","date_gmt":"2020-06-21T19:13:26","guid":{"rendered":"http:\/\/paineira.usp.br\/cje\/babel\/?p=182"},"modified":"2020-09-30T10:42:10","modified_gmt":"2020-09-30T13:42:10","slug":"relatos-insoniosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=182","title":{"rendered":"Relatos insoniosos"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>01 de maio de 2020, 3h47 a.m.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Engra\u00e7ado pensar na evolu\u00e7\u00e3o do &#8220;ficar acordado \u00e0 noite&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando crian\u00e7as, ficamos acordados at\u00e9 tarde por ser algo proibido, que nossos pais n\u00e3o deixam porque precisamos ter energia para o dia seguinte. Havia, e acho que sempre haver\u00e1, algo de secreto em viver enquanto os outros dormem, sem ningu\u00e9m observando. E que crian\u00e7a n\u00e3o se sente atra\u00edda em fazer algo secreto e proibido? Sempre haver\u00e1 crian\u00e7as&nbsp; acordadas \u00e0 noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os m\u00e9dicos, dormir \u00e9 algo importante para a sa\u00fade, ajuda no crescimento, na imunidade e no desenvolvimento cognitivo. Mas \u00e9 claro que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil assim explicar essas coisas para uma crian\u00e7a. Ah, se soubesse antes\u2026 talvez teria dado mais valor \u00e0s horas de dormir. Talvez me tornasse uma pessoa mais inteligente e fosse alguns cent\u00edmetros mais alta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na adolesc\u00eancia, a gente fica acordado at\u00e9 mais tarde porque \u00e9 legal, \u00e9 &#8220;coisa de adulto&#8221;.&nbsp; Que adolescente n\u00e3o quer se sentir mais adulto? Afinal, n\u00e3o \u00e9 nessa \u00e9poca que a gente acha que j\u00e1 tem maturidade suficiente, viveu o suficiente e que consegue fazer qualquer coisa? \u00c9 aqui que come\u00e7am as festinhas a partir das 19h e terminam depois da meia-noite, ou ent\u00e3o as noites de estudos e revis\u00f5es pr\u00e9-provas escolares. Ou ainda as noites online, conversando com amigos ou estranhos em f\u00f3runs de discuss\u00f5es de qualquer coisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De repente, o dia fica pequeno. n\u00e3o d\u00e1 pra estudar, trabalhar e ter um momento de lazer em fam\u00edlia ou sozinho em um mesmo dia sem entrar madrugada a dentro. Quanto mais a gente cresce, menos tempo dorme e o cansa\u00e7o come\u00e7a a acumular. E se fosse s\u00f3 o cansa\u00e7o, tudo bem. \u00c9 poss\u00edvel tirar um dia para dormir a mais. Os fins de semana s\u00e3o para isso. Mas e quando n\u00e3o se consegue dormir? Como bem pode ver, s\u00e3o quase 4h da madrugada e estou acordada, falando do sono e cansa\u00e7o que sinto e n\u00e3o consigo me livrar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo a <em>Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Sono<\/em>, pelo menos um ter\u00e7o dos brasileiros sofre de ins\u00f4nia. Acho que infelizmente fa\u00e7o parte desse ter\u00e7o. Dizem que ins\u00f4nia tem o estresse como causa principal, ent\u00e3o imagino que esse n\u00famero tenha aumentado durante a pandemia que estamos vivendo. Me solidarizo com quem estiver sofrendo com isso agora. Ser\u00e1 que sofro de estresse desde sempre? N\u00e3o sei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de quase seis meses sofrendo rotineiramente com isso, sinto uma certa raiva de precisar dormir, da hora de ir para a cama e fico ansiosa quando come\u00e7o a sentir sono. \u00c9 muito triste n\u00e3o conseguir fazer direito nem mesmo a coisa mais natural e b\u00e1sica dos seres vivos. Demoro para pegar no sono, qualquer coisa me atrapalha. Fico ouvindo a respira\u00e7\u00e3o do cachorro na tentativa de me acalmar e nada acontece.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que eu durmo, porque ningu\u00e9m consegue n\u00e3o dormir tanto tempo sem morrer. Em todo caso, eu honestamente n\u00e3o aguento mais dormir mal. Houve noites totalmente em claro, rolando na cama. Teve tamb\u00e9m os momentos de ir ver document\u00e1rios sobre a natureza para tentar dormir (e n\u00e3o consegui). \u00c0s vezes, acordava quando percebia estar dormindo. Ah! e n\u00e3o vamos esquecer dos dias em que s\u00f3 desmaiava de sono em hor\u00e1rios aleat\u00f3rios do dia, por horas e horas e, mesmo assim, n\u00e3o sentia que tinha dormido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, sinto at\u00e9 que j\u00e1 me acostumei com a situa\u00e7\u00e3o. E talvez seja assim mesmo. Dormir um pouco ou dormir mal \u00e9 melhor que nada. N\u00e3o estou mais em fase de crescimento e nenhum sistema imunol\u00f3gico forte \u00e9 sin\u00f4nimo de prote\u00e7\u00e3o atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, estamos todos sofrendo e cansados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>13 de maio de 2020, 2h16 a.m. <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em mais uma saga de noites e sono frustrados, perguntei por a\u00ed o que as pessoas pensam antes de dormir. Uma das respostas que recebi foi &#8220;o ideal \u00e9 n\u00e3o ficar pensando, mas se for, pense no seu dia&#8221;. Quanto mais tentei, mais pensei.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os dias tem sido como todos os dias, literalmente. Acordar, ver not\u00edcia, come\u00e7ar a trabalhar, parar e ver alguma coisa na TV. Acho que antes era assim tamb\u00e9m, mas pelo menos podia sair de casa. Contando os dias, faz cinquenta dias que S\u00e3o Paulo est\u00e1 na quarentena por causa da pandemia de Covid-19, um novo coronav\u00edrus que pegou o mundo de surpresa. Come\u00e7ou na China em dezembro do ano passado. Se espalhou pela \u00c1sia, chegou na Oceania, Europa, Am\u00e9rica e \u00c1frica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo parou com a pandemia para proteger as pessoas, milhares morreram e continuam morrendo aqui, al\u00ed e em todo lugar. Os sistemas de sa\u00fade do mundo inteiro est\u00e3o sobrecarregados e o melhor jeito de nos protegermos \u00e9 nos isolando. A produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o-essencial parou, o &#8220;<em>home office<\/em>&#8221; foi instaurado onde deu e as proje\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para o futuro pr\u00f3ximo s\u00e3o desanimadoras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de cinquenta dias\u2026 O primeiro caso chegou ao Brasil em 26 de fevereiro. Na metade de mar\u00e7o iniciamos a quarentena. &#8220;quinze dias&#8221;, disse o governador de S\u00e3o Paulo, Jo\u00e3o D\u00f3ria. Incr\u00edvel como quinze dias se transformaram em cinquenta. No come\u00e7o\u2026 N\u00e3o sei bem se lembro como foi o come\u00e7o, mas todo mundo achava que eram s\u00f3 quinze dias mesmo. A ideia era de que desse o tempo de efeito da doen\u00e7a para rastre\u00e1-la novamente. No final descobrimos que a doen\u00e7a j\u00e1 tava no pa\u00eds desde janeiro e a\u00ed j\u00e1 tava todo mundo perdido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E no come\u00e7o, diziam que era um v\u00edrus pouco letal, que poucos morreriam, que \u00e0s vezes nem apresentavam sintomas. No come\u00e7o, eu e alguns amigos at\u00e9 brinc\u00e1vamos que quer\u00edamos pegar o v\u00edrus para ter uns quinze dias de descanso da nossa vida&#8230; Dif\u00edcil acreditar que era assim depois de mais de <em>xx<\/em> mil mortes em quase tr\u00eas meses. E sabe o que \u00e9 mais engra\u00e7ado que tudo isso? Vi muitos conhecidos e amigos perdendo parentes por causa da doen\u00e7a, mas eu n\u00e3o tive a doen\u00e7a, ou algu\u00e9m que eu conhe\u00e7o e amo de fato.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 estranho porque quando falam os n\u00fameros de mortes, falam os &#8220;n\u00fameros de mortes&#8221;, n\u00e3o o de &#8220;pessoas que morreram&#8221;. Talvez n\u00e3o tenha diferen\u00e7a, mas acho que tudo seria diferente se falassem de uma forma mais humanizada. Quando ou\u00e7o o n\u00fameros, sinto medo e solidariedade das pessoas que perderam entes queridos, claro, mas \u00e9 s\u00f3 isso. N\u00e3o fico t\u00e3o triste ainda\u2026 Pe\u00e7o desculpas ao que sentem mais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que eu sinto \u00e9 algo mais parecido com ansiedade. Ansiedade para saber como est\u00e3o meus pais, que passam a quarentena longe de mim (talvez eu devesse ligar mais para eles\u2026); ansiedade de poder pegar a qualquer momento. A ansiedade de saber o mundo que a gente vai encontrar depois. Quem vai sobrar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, melhor dizendo, impressionante e assustador como &#8220;quinze dias&#8221; se tornaram uma enorme incerteza. Para muitos j\u00e1 virou uma trag\u00e9dia e para outros muitos, o fim. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar nessas coisas na hora de dormir. Se j\u00e1 era dif\u00edcil dormir antes, imagine agora&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>19 de maio de 2020. 4h06<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dizem que chorar muito relaxa e ajuda a descansar depois. Normalmente funciona, mas nada \u00e9 mais como normalmente era. H\u00e1 uma semana me demitiram do trabalho. N\u00e3o sei dizer bem como me senti, s\u00f3 sei que chorei. Chorei todos os dias desde ent\u00e3o, continuo chorando hoje. N\u00e3o sei explicar o motivo, porque eu j\u00e1 nem gostava tanto do meu trabalho assim e vivia dizendo que queria me demitir. Era cansativo, estressante, massacrante, me fazia sentir como uma pessoa burra e incompetente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o que eu me sinta diferente agora. Na verdade, continuo me sentindo assim, talvez at\u00e9 mais agora. E eu sei que muito provavelmente teve mais a ver com a crise e a pandemia do que com o meu trabalho em si, porque metade das pessoas foram demitidas junto comigo. Mas e da\u00ed?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que tenho direito de ficar triste e nervosa e ansiosa com isso. O mundo caindo, todo lugar demitindo mais do que contratando, empresas fechando, pessoas morrendo, tudo ficando cada vez mais caro, todas as contas caindo\u2026. S\u00f3 de pensar me d\u00e1 desespero. E a parte que mais d\u00f3i \u00e9 todo o discurso pr\u00e9-quarentena de tentar salvar os empregos que meus chefes faziam. E a nenhuma expectativa de conseguir algo novo em breve \u00e9 uma ang\u00fastia toda vez que preciso comprar algo essencial, como comida, ou pagar uma conta.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp; Todo esse jogo do trabalho \u00e9 uma desgra\u00e7a. Voc\u00ea trabalha pra ter dinheiro e conseguir comprar suas coisas essenciais e se dar alguns poucos pequenos prazeres, os quais nem consegue curtir direito porque n\u00e3o tem tempo, pois na maior parte do tempo estamos no trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda assim, encontra um emprego em uma \u00e1rea que gosta, pelo menos. Mas \u00e9 massacrado por ele em todos os n\u00edveis poss\u00edveis devido a press\u00e3o eterna de perder esse emprego, esses pequenos prazeres e a possibilidade de comprar o essencial . A gente \u00e9 ref\u00e9m do nosso sal\u00e1rio, que nunca condiz de fato com o valor do nosso trabalho, e \u00e9 descartado igual lixo quando as coisas apertam para quem comanda a empresa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E a pior parte \u00e9 que voc\u00ea aprende a gostar disso. Dos pequenos desafios di\u00e1rios, a receber uma bronca e sair por cima no final. Tamb\u00e9m aprecia todos os erros que cometeu e aprendeu com eles. Todos os perrengues em grupo\u2026 aquilo toma conta da sua pessoa, passa a definir voc\u00ea. Geralmente como uma conversa acontece? &#8220;Oi, tudo bem? meu nome \u00e9 fulano e fa\u00e7o isso aqui pra viver&#8221;. Quando voc\u00ea n\u00e3o faz nada, \u00e9 o que? O que voc\u00ea \u00e9, n\u00e3o o que voc\u00ea faz, tem import\u00e2ncia? E a humilha\u00e7\u00e3o de n\u00e3o fazer algo?<\/p>\n\n\n\n<p>A gente est\u00e1 o tempo todo fazendo tanta coisa que acaba virando essas coisas. E agora que fa\u00e7o nada, sou nada? &#8220;Tira um tempo para voc\u00ea, fique sem fazer nada&#8221;, disseram. Pois bem. Tamb\u00e9m n\u00e3o ganho nada agora, ent\u00e3o devo morrer de fome pelo capricho de n\u00e3o ser nada? Faz sentido at\u00e9, pois se voc\u00ea n\u00e3o existe, n\u00e3o precisa comer. Acho que \u00e9 essa deve ser a l\u00f3gica dos que negam comida e aux\u00edlio aos moradores de rua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 cruel demais. Sempre soube que era, mas neste contexto tudo fica pior e mais&nbsp; expl\u00edcito. Mas trabalhar era uma terapia ocupacional, a qual ocupava meus dias e at\u00e9 me impedia de pensar nos problemas. Era uma compensa\u00e7\u00e3o, \u201cest\u00e1 tudo ruim, mas pelo menos eu trabalho, me distraio e recebo algo por isso\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais que isso, talvez\u2026 Era a \u00fanica coisa que eu tinha e que me dava esperan\u00e7a de que a vida voltaria ao normal, como era antes. Se nem o emprego de antes eu tenho mais, o que vai sobrar quando isso acabar?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>02 de junho de 2020, 5h12 a.m<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Depois de setenta dias de confinamento, vendo apenas as mesmas pessoas que moram comigo, a mesma vista, me mexendo pouco e indo s\u00f3 no mercado, preciso confessar que n\u00e3o aguento mais ficar em casa. N\u00e3o sinto falta do meu antigo emprego tamb\u00e9m, na verdade me sinto muito leve agora que sa\u00ed. Mas fico em um t\u00e9dio constante em que nada \u00e9 feito direito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Meus dias s\u00e3o: estudo um pouco para projetos futuros, leio bastante, vejo muitas not\u00edcias e depois descanso. Esse era o plano, mas n\u00e3o consigo me disciplinar para seguir essas coisas em casa. S\u00f3 sou sugada pelo sof\u00e1 enquanto vejo not\u00edcia, que ali\u00e1s s\u00e3o t\u00e3o desanimadoras que d\u00e3o menos vontade ainda de se fazer algo. Parece que tem uma enorme diferen\u00e7a em sair de casa para fazer algo e fazer em casa. A casa \u00e9 o local de descanso, sempre foi e agora passou a ser lugar de tudo. Isso \u00e9 horr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A coisa que eu mais sinto falta em sair de casa para ir estudar ou trabalhar \u00e9 o transporte p\u00fablico. Sim, eu sei que \u00e9 estranho. Mas em uma rotina normal, quando saiamos de casa e fic\u00e1vamos horas na rua indo de um lugar produtivo para outro, o transporte p\u00fablico \u00e9 aquele tempo que t\u00ednhamos para n\u00e3o pensar em nada, apenas ouvir uma m\u00fasica ou ler um livro. E mesmo com a p\u00e9ssima infraestrutura e a superlota\u00e7\u00e3o, ainda era um sentimento de descanso. Pelo menos para mim, era. Era como ficar sozinha no meio de outras pessoas sozinhas. Triste, n\u00e3o? Mas eu sinto falta disso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 como se eu sentisse vontade de pegar um \u00f4nibus ou metr\u00f4 s\u00f3 para dar uma volta e pronto. Sinto falta de ter prop\u00f3sito para sair. Ir de um lugar ao outro, n\u00e3o apenas ir erroneamente para algum lugar. Qual o ponto de qualquer sem um prop\u00f3sito? Acho que essa \u00e9 a quest\u00e3o, afinal. Hoje temos todos os motivos para ficar em casa: a pandemia, o risco de se contaminar, proteger os demais, o fato de estar tudo fechado, etc, etc, etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Engra\u00e7ado que antes tudo era motivo para n\u00e3o sair. Faltava aula porque queria ficar em casa, dormindo ou descansando. N\u00e3o ia em eventos dos meus amigos porque queria ficar em casa, pois j\u00e1 ficava muito tempo fora de casa, porque era mais confort\u00e1vel. Vai ver o ser humano realmente s\u00f3 se importa com as coisas que n\u00e3o pode fazer. Ou vai ver, a gente nunca tenha dado o devido valor ao movimento de ir e vir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Falando em amigos. \u00c0s vezes acho que n\u00e3o terei mais alguns quando tudo isso acabar. Quando tudo isso come\u00e7ou, tamb\u00e9m come\u00e7aram a falar, principalmente a m\u00eddia, em alternativas tecnol\u00f3gicas para manter contato com as pessoas que est\u00e3o distantes. Isso \u00e9 um debate antigo com muitos entusiastas, mas acho que esses entusiastas tamb\u00e9m sentem saudade do contato humano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A tecnologia \u00e9 \u00f3tima em falar com as pessoas a dist\u00e2ncia, mas \u00e0s vezes a gente n\u00e3o quer s\u00f3 falar. Falta o abra\u00e7o, a presen\u00e7a, a viv\u00eancia cotidiana entre as pessoas. As rela\u00e7\u00f5es nascem assim, de viv\u00eancia conjunta. Se n\u00e3o tem isso, o que sobra? Claro que o carinho sempre fica, mas tenho medo de terminar esse processo mais sozinha do que j\u00e1 comecei, com pessoas se afastando de mim e esquecendo que eu existo. Porque nem eu mais sei se existo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>9 de junho de 2020<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei mais quantos dias estamos em quarentena e para efeito pr\u00e1tico n\u00e3o importa muito. Sei que faz uns meses e mesmo assim n\u00e3o me adaptei completamente. N\u00e3o consigo instaurar uma rotina que me permita ser produtiva e relaxar ao mesmo tempo, de forma equilibrada. Tem dia que fa\u00e7o demais e depois muitos dias que fa\u00e7o de menos. Engra\u00e7ado isso, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 como se fosse imposs\u00edvel ter equil\u00edbrio em uma situa\u00e7\u00e3o desequilibrada. Mas, se parar para pensar, a vida nunca foi equilibrada. Acho que essa \u00e9 s\u00edntese de tudo que foi dito aqui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desequil\u00edbrio no sono, na rotina, nas atividades externas. \u201cFazer demais\u201d. Lembro que fazia demais antes, que vivia cansada, que n\u00e3o conseguia fazer nada com a devida dedica\u00e7\u00e3o e que na maioria das vezes s\u00f3 queria n\u00e3o estar vivendo se fosse para viver daquela forma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A gente vivia de formas muito extremas, com cobran\u00e7as internas e externas t\u00e3o grandes que massacravam o cotidiano, mas era tanta coisa para ser feita que nem ligav\u00e1mos e s\u00f3 \u00edamos nadando com a corrente, com esperan\u00e7a de desembocar em um rio mais tranquilo. Mas isso acabou nos levando para uma cachoeira e n\u00e3o sabemos por quanto tempo vamos ficar caindo ou onde vamos parar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que tem uma coisa: n\u00e3o tem como lutar contra quedas livres, contra correntezas sim, mas quedas n\u00e3o. Esse \u00e9 o momento em que a gente realmente s\u00f3 pode esperar. E enquanto a gente espera, a gente tem f\u00e9 de n\u00e3o morrer nem na queda, nem no impacto. Uma das quest\u00f5es principais \u00e9: o que fazer se sobrevivermos?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu gosto de pensar que em momentos de queda livre se chamam assim porque podemos escolher onde cair. Se for assim, seria poss\u00edvel trocar de rio?<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que parece maluquice, na minha humilde opini\u00e3o, est\u00e1vamos todos indo para uma autodestrui\u00e7\u00e3o, tanto que chegamos onde estamos devido a esse modo de vida em que se produz muito e se pensa pouco sobre os impactos que causamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esse seja o momento de avaliarmos como era a vida que levamos antes e para onde ela podia nos levar. Melhor ainda: pensarmos para onde de fato queremos ir enquanto sociedade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Por Let\u00edcia Tanaka<\/strong><br>leticiamtanaka@usp.br<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"01 de maio de 2020, 3h47 a.m. Engra\u00e7ado pensar na evolu\u00e7\u00e3o do &#8220;ficar acordado \u00e0 noite&#8221;.&nbsp; Quando crian\u00e7as, ficamos acordados at\u00e9 tarde por \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=182\"> <\/a>","protected":false},"author":43,"featured_media":183,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-182","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-revista-babel-junho-2020"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Relatos insoniosos - Revista Babel<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/babel.webhostusp.sti.usp.br\/?p=182\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Relatos insoniosos - Revista Babel\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"01 de maio de 2020, 3h47 a.m. Engra\u00e7ado pensar na evolu\u00e7\u00e3o do &#8220;ficar acordado \u00e0 noite&#8221;.&nbsp; 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