Dulcilia Buitoni: 50 anos de constante construção docente

por Bruno Militão

Aluna da primeira turma de graduação na ECA, a professora rememora algumas das vivências das cinco décadas de sala de aula. 

O Complexo Brasiliana USP busca se impor em relação aos outros edifícios que compõem a Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira, ou, como alguns podem conhecê-la, a USP Butantã. Inaugurado em 2013, recente para os padrões da Universidade, o prédio abriga a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, o auditório István Jancsó e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), neste, onde a professora Dulcilia Buitoni finaliza mais uma aula da disciplina que ministra no semestre. Com a voz calma, que ecoa pelas grandes salas de aula, ela tira dúvidas das alunas que vêm cursar a disciplina do programa de pós-graduação do IEB. Nessas aulas, Dulcilia busca traçar um panorama das visualidades brasileiras a partir de suportes midiáticos como revistas, jornais impressos e livros.

Fachada do IEB. (Foto Cecília Bastos/USP Imagens).


O vínculo dela com o IEB é o de professora sênior: classe de docentes já aposentados que permanecem colaborando, ministrando disciplinas e realizando pesquisas. Ela admite que os novos ares do local foram um atrativo. “Um dos motivos que me fizeram vir para cá foi isso aqui”, diz, gesticulando com as mãos, se referindo ao prédio e ao instituto onde estamos.
O mestrado multidisciplinar oferecido por lá, que conecta saberes; a organização dos professores de forma mais colegiada (“não há divisão em departamentos”); esses pontos chamaram a atenção da professora, que iniciou o contato com o IEB a partir do convite de Walter Garcia, ex-aluno de Dulcilia e hoje professor, para a participação em bancas de defesa de mestrado. 

Anteriormente ao trabalho no IEB, ela teve uma passagem como docente do mestrado profissional em Jornalismo da ESPM, a partir de 2017. Antes disso, entre 2006 e 2015, atuou como professora do Mestrado em Comunicação da Cásper Líbero. Mais recentemente, em 2020, ela retornou à Universidade onde há 50 anos iniciou sua carreira docente. 

Dulcilia Helena Schroeder Buitoni era aluna da Faculdade de Direito da USP quando ficou sabendo da abertura do vestibular para a recém-criada Escola de Comunicações Culturais (ECC), como a ECA se chamou até 1969. “Eu queria fazer algo mais amplo, queria fazer jornalismo, mas queria ir para uma ‘faculdade grande’. Fui visitar a Cásper Líbero, que funcionava em dois andares de um prédio do centro. A biblioteca tinha apenas dois armários, com portas de vidro”, ela se lembra. Uma outra opção seria o curso de Letras, que também lhe interessava. No entanto, não pensava em ser professora no ensino básico, o que a levou para a São Francisco. No prédio histórico, ao menos, teria uma ‘faculdade grande’ para ter outras vivências, e uma biblioteca que a faria descobrir outras referências. Com a abertura da seleção para a ECC, prestou o vestibular e passou. Resolveu, então, seguir com as duas faculdades concomitantemente. 

Pouco antes de se formar na ECA, Dulcilia começou a trabalhar na revista Intervalo, da Editora Abril, publicação dirigida por Milton Coelho da Graça, que também era responsável pela revista Realidade – a grande referência da interação texto-imagem para os jovens jornalistas da época. Recém formada, continuou a trabalhar na editora. Com o fim de Intervalo, passa a atuar na revista feminina Capricho, à época famosa por suas fotonovelas, onde chegou a ser redatora-chefe durante o ano de 1977. “Nessa época, Realidade já estava fechada, e muitos dos repórteres e fotógrafos de lá vieram trabalhar comigo. Agora, imagine, veio pra mim nada mais, nada menos que Carlos Moraes, o ‘padre’ de Realidade, pra ser repórter especial. A gente aprontou horrores”, afirmando que, apesar da imagem, Capricho tinha uma seção redacional significativa. 

Ao lado da carreira como jornalista, juntamente com o fim da graduação, em 1970, veio a continuação do trabalho acadêmico. Em 1971, realizou o desejo de estudar literatura ao ingressar no programa de pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH, sob orientação de João Alexandre Barbosa – que dá nome à Livraria da EdUSP presente no Complexo Brasiliana. Pouco tempo depois, em 1972, Dulcilia iniciaria a carreira docente no departamento onde construiria sua carreira. 

Naquele momento, o Departamento de Jornalismo iniciava a estruturação do curso de Editoração. Como Dulcilia, além da formação em jornalismo, se enveradava pelos estudos literários, pensaram que seria uma boa opção para o quadro de professores do curso recém-criado. “Decidi me candidatar para a seleção, até porque eu queria me casar e, na Abril, como repórter, eu tinha um salário pequeno, e queria ganhar mais – apesar de que em alguns momentos muitos de nós, auxiliares de ensino, trabalhávamos sem receber nada”, confidencia. 

Apesar do entusiasmo com a experiência docente, o início foi conturbado. Isso porque, como acontecia desde a fundação do curso de jornalismo, muitos profissionais com experiência de mercado buscavam a graduação recém-estruturada como forma de aprofundamento no campo. “Eu, jovem, iniciante, ainda repórter, cheguei a dar aula para chefes da Abril. Muitos dos alunos ali eram todos mais velhos que eu”, lembra. “Eu sabia menos que eles na época, tinha menos experiência.” Com o tempo, a prática docente, por meio da experiência em sala de sala, junto àquela adquirida em redações de jornalismo especializado, foi se consolidando, mas não sem alguns percalços. Era preciso conciliar o trabalho diário na redação com as aulas ministradas na ECA e aquelas cumpridas na pós-graduação. “Consegui conciliar conversando com meus chefes. Como repórter, fiz muita matéria fora, em campo, então não precisava voltar para a redação.”

Apesar da experiência adquirida, alguns impasses surgiram ao longo do caminho. Em 1976, por exemplo, depois de um ano de greves da ECA, muitos professores tiveram de ministrar disciplinas dos semestres par e ímpar ao mesmo tempo. Dulcilia, recém-chegada do fim da sua primeira licença-maternidade, entrou nesse malabarismo de aulas: chegou a ministrar, em um mesmo semestre, cinco disciplinas diferentes para alunos de graduação. 

Em 1077, ela defendeu, na FFLCH, a dissertação de mestrado “Quadrado amoroso: algumas considerações sobre a narrativa de fotonovela”, muito por influência de seu contato próximo com essa mídia. Nessa pesquisa, percebeu a ausência de trabalhos acadêmicos sobre a imprensa feminina, o que a levou naturalmente a apresentar um projeto sobre a imagem da mulher brasileira na imprensa feminina na inscrição para o doutorado – também na FFLCH, com o mesmo orientador, João Alexandre Barbosa. A tese “Mulher de papel: a representação da mulher na imprensa feminina brasileira”, defendida em 1980, transformou-se em livro publicado (Editora Loyola) em 1981, com uma edição revista e ampliada (Editora Summus, 2009).

Também em 1980, os concursos para docentes chegam à ECA. Antes, os professores eram selecionados temporariamente, apenas renovando os contratos a cada dois ou três anos. No Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), além de Dulcilia, os professores José Marques de Melo e Jair Borin passam para a categoria de efetivos. A partir de então, a docente inicia sua atuação na pós-graduação da ECA (que também completa 50 anos em 2022) e um envolvimento mais sistematizado com projetos de pesquisa. Nesse momento, um grupo de professoras era responsável pela sequência de disciplinas de Redação Jornalística – as quais passaram por diversas reformulações. A proximidade natural para estruturar os cursos fez com que surgisse um núcleo de pesquisa em Jornalismo e Linguagem (que também passou por diversas formações). Além de Dulcilia, as professoras Jeanne Marie Machado de Freitas, coordenadora do grupo, e Maria do Socorro de Nóbrega encabeçavam o projeto. 

Na década de 1990, a atuação internacional se reforçou, especialmente a partir do convênio entre a ECA e a Universidad Autònoma de Barcelona (UAB). A partir de 1992, docentes estrangeiros ministraram disciplinas compactas na pós-graduação na ECA, assim como os professores ecanos levaram os conhecimentos desenvolvidos aqui para as universidades estrangeiras. Em 1993, a professora Dulcilia, junto com o professor Sebastião Squirra, foi selecionada para atuar como professora visitante na Universidad da Catalunia. Esse convênio funcionou por mais de dez anos, e rendeu frutos importantes para a pesquisa da docente, como o contato com o professor Josep Català, grande pesquisador de imagens.

Dulcilia seguiu com atividades de ensino, pesquisa e extensão, seguindo os processos de progressão de carreira docente até chegar ao cargo de professora titular, em 1991. Em 1999, após 27 anos de trabalho só na ECA, decidiu pela aposentadoria. Pensava em organizar melhor seus anos e suas atividades de docência e pesquisa. Apesar disso, seguiu como professora sênior até 2005, já que ainda tinha orientandos de mestrado e doutorado.

Depois das passagens pela Faculdade Cásper Líbero e pela ESPM, a docente retorna à USP, desta vez no IEB. A abrangência e diversidade nos temas abarcados pelas produções desse instituto da USP chamou a atenção de Dulcilia, que está atenta às questões contemporâneas da cultura. Os cinquenta anos de docência oferecem a experiência e a vitalidade para continuar trabalhando constante e intensamente. Ao longo da produção da reportagem, não foi incomum que ela respondesse às trocas de mensagens para marcar o encontro já depois da meia noite. E os textos nunca vinham de forma avulsa, mas sempre com uma nova criação. Neste ano, a professora se lançou como letrista com o “Rap das Vovós”, o qual também dirigiu, que juntou um grupo de avós “preocupadas com os descaminhos da política no Brasil”. Elas propõem irmos às ruas cantar, dançar e fazer cirandas a fim de demonstrar os desejos da população.

Depois, foi a vez de se lançar no Instagram e no TikTok, por meio da personagem “Velhinha da Mantiqueira”: um desenho de uma senhora de cabelos brancos que, ao ser animada e sonorizada, faz perguntas a Jair Bolsonaro. “Bolsonaro, por que você não confia na ciência?”, “Bolsonaro, por que você mente tanto?” são algumas delas. 

E sobre parar ou diminuir o ritmo? Ainda nada. Está ansiosa pela implantação do doutorado na pós-graduação do IEB, que “já está em Brasília” aguardando aprovação do MEC, além dos novos projetos de pesquisa a serem desenvolvidos. Para quem não pensava em ser professora, o contato com a sala de aula e os alunos se constituiu como parte central de quem ela é. São, segundo ela, “coisas da vida”.