A linha de produção de rostos iguais

Seja rolando o feed do Instagram, assistindo ao jornal ou folheando uma revista de beleza, você já deve ter se deparado com o termo “harmonização facial”. O conjunto de técnicas e procedimentos faciais que, ao menos em teoria, tornam o seu rosto mais harmônico e bonito ganhou grande destaque no cenário brasileiro. 

A busca do Google registrou um aumento de 540% na pesquisa pelo tema em 2019, quando famosos, como Joelma e Gretchen, passaram pelos procedimentos. Em 2020, o termo cresceu 115% mais.

Apesar desse aumento nas buscas e por pessoas que fazem o procedimento em si, existem ainda algumas controvérsias quanto ao tema, desde o termo que é utilizado, passando pela banalização de uma intervenção estética até a questão mais polêmica: quem está, legal e profissionalmente, habilitado para fazer os procedimentos.

O que é harmonização facial?

Antes de adentrarmos em questões que geram discussões quanto a harmonização facial, precisamos voltar a uma questão primordial: o que é a harmonia que essas pessoas buscam ao passar por essa série de intervenções?

Para o cirurgião plástico membro do corpo clínico do Hospital Albert Einstein, Wendel Uguetto, “harmonia é como a gente enxerga o que é belo. Um rosto belo é um rosto que segue algumas proporções”. Em outras palavras, podemos entender como harmoniosa aquela face equilibrada e com maior simetria entre os dois lados.

E essa harmonia é o que tornaria um rosto bonito ou não. 

Então, os procedimentos, como rinoplastia, bichectomia, aplicação de ácido hialurônico e ou botox — que são os mais comuns quando se fala em harmonização facial — seriam associados com a intenção de “tornar o rosto mais único e mais simétrico”, diz o médico.

Mas o que estamos vendo é bem o oposto disso. Seja por inexperiência profissional, por seguir uma “receita de bolo” ou por má fé, o resultado tem sido bem semelhante na maioria das pessoas. O rosto não tem se tornado único. Muito pelo contrário, ao abrir o instagram a sensação é que todas as pessoas estão se tornando iguais, cópias umas das outras, de faces idênticas.

Os procedimentos que são feitos

Cada pessoa tem um rosto único. E quando alguém chega ao consultório de Uguetto, procurando levar maior harmonia para seu rosto, a decisão é feita de maneira conjunta e através de cálculos matemáticos. “Então a gente sabe que existem algumas proporções que a gente tem que seguir, para tornar o rosto mais belo. E a gente segue essas proporções matemáticas”, diz o médico.

Com uma carreira longa e vasta experiência na área, ele faz um tratamento individualizado com cada paciente. Mas, infelizmente, sabemos que não é assim com todos os profissionais. “No começo da carreira pode ser que alguns profissionais sigam aquela ‘receitinha de bolo’. Existem cursos que ensinam a fazer a preenche tanto nessa região, tanto naquela região”, continua.

Karol Karaziaki, criadora de conteúdo digital com mais de 11 mil seguidores no instagram, procurou uma dentista para suavizar suas linhas de expressão, corrigir um ossinho do nariz e preenchimento labial para deixar seu lábio simétrico. 

Com um atendimento individualizado, a profissional não indicou outros procedimentos além dos solicitados pela maquiadora. “Da minha região ela é a mais bem conceituada, ela faz com muita cautela e de acordo com o pedido do cliente”, relata sobre sua experiência.

Hoje, o mais comum de se ver na harmonização facial são os seguintes procedimentos: rinomodelação — em que se aplica ácido hialurônico no nariz para corrigi-lo — rinoplastia, bichectomia, aplicação de botox na testa, preenchedores para marcação do maxilar, preenchimento labial e lipoaspiração de papada.

A Aline Cristina Lima, advogada de 30 anos, procurou uma dentista conhecida para fazer a bichectomia, procedimento que extrai a almofada de gordura bucal e deixa o rosto mais fino. “Eu me considerava bochechuda. E eu não gostava, eu percebia que nas fotos eu não raro, mudava com aplicativos para diminuir um pouco [as bochechas] ou tirar foto de um ângulo que não aparecesse tanto a bochecha”, diz.

O procedimento, de recuperação tranquila, gera algumas polêmicas entre os profissionais da saúde. Enquanto alguns afirmam que ela pode provocar flacidez precoce na pele com o passar dos anos, outros, como a dentista que atendeu Aline, afirmam que isso não ocorre. “Ela explicou como [a bochecha] ficaria mais murchinha, né? E que não tem esse efeito de cair a bochecha como algumas pessoas falam por aí”, relata a advogada.

Os efeitos esperados

Quando alguém busca a harmonização facial, ele costuma saber muito bem o que o incomoda em seu rosto e aqueles pontos que deseja corrigir em sua face. Aline, por exemplo, sabia os resultados que queria e levou uma imagem de referência: queria o resultado parecido com os obtidos pela atriz global Fernanda de Vasconcellos. 

Fernanda Vasconcellos antes e depois da bichectomia [Reprodução: Internet]

Além de chegar com fotos de famosos e subcelebridades referências em beleza, tem se tornado cada vez mais comum usar como referências os filtros do instagram. Ou seja, o paciente tira foto com determinado filtro da rede, chega no consultório e diz que quer o nariz, a boca ou o maxilar exatamente a daquela imagem ali. 

“O que é o limite, o que a gente consegue como cirurgião. Nós temos limites, eu não consigo transformar um rosto totalmente como um programa de computador. Computador é fácil, né?”, diz Wendell.

O psicólogo clínico e especialista em terapia comportamental cognitiva, Luiz Antonio Bernardes, explica que na realidade talvez não seja aquele rosto que a pessoa queira. Mas sim os resultados que ela pode atingir com ele. 

Por exemplo, você posta uma foto com determinado filtro e ela tem mais curtidas que outras com você natural. Isso pode criar a sensação de que as pessoas gostaram mais de você ou do seu rosto, com determinada aparência. E você se frustra quando suas imagens deixam de atingir o número de curtidas que tinham com o uso do filtro. 

Karol, que trabalha com sua imagem e a vê como ferramenta importante em sua profissão, relata que sua aparência em fotos foi sim um dos motivos que a levou a buscar a harmonização facial, e não está sozinha. Em 2017, um estudo da Academia Americana de Cirurgiões Plásticos revelou que a motivação de 55% das pessoas que fizeram rinoplastias em 2017 foi o desejo de sair melhor em selfies.

“Eu pensaria muito no sentido de eu quero ser igual fulano, pra ter, talvez, os mesmos resultados que o outro tem”, explica Bernardes. “Então, quando você olha uma blogueira, ver um artista que fez uma harmonização facial e ela, de repente, conseguir mais likes para aquela foto, talvez o que eu esteja querendo não é ter o rosto igual o dele, mas eu tô querendo aqueles likes”, continua.

E as pesquisas não negam. De acordo com estudo realizado pela Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva (AAFPRS) 57% dos pacientes das clínicas dos EUA revelam acreditar que esses procedimentos os ajudarão em promoções ou se sentirem mais competitivos no mercado de trabalho.

Quais as profissões habilitadas a realizar o procedimento?

Quando alguém decide passar por qualquer procedimento que seja, além de pesquisar e tentar entender melhor o assunto, é normal e necessário procurar um profissional para realizá-lo.

A harmonização facial ou orofacial, como costuma ser chamada pelos profissionais dentistas, é uma daquelas incógnitas em que há brigas, inclusive judicialmente, para decidir quem pode ou não realizá-lo.

“No Brasil, a regulamentação é bem falha. Basicamente o, existe a lei do ato médico, que é uma lei que, que define o, o que são procedimentos exclusivos de médicos. Entre eles procedimentos estéticos invasivos”, explica o médico e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Adriano Mesquita Bento.

Além disso, existem os conselhos de classes, por exemplo, o Conselho Federal de Odontologia (CFO), que regulamenta os procedimentos que cada classe pode ou não realizar. 

De acordo com com a diretoria do CFO, em entrevista por e-mail, “a Harmonização Orofacial é o conjunto de procedimentos de autonomia legal do Cirurgião-Dentista para exercer em sua área de atuação, que compete o equilíbrio funcional e estético da face, conforme Resoluções CFO 198/2019 e 230/2020”.  

Mas, existem controvérsias e até pedidos legais para que apenas médicos possam realizar os procedimentos. O primeiro ponto argumentado pela classe médica é que pensando nas especialidades que são reconhecidas pela Associação Médica Brasileira, como especialidades médicas, “o plástico e o dermatologista, são as duas únicas que têm a formação completa para poder aplicar o conhecimento nesses procedimentos”, diz Mesquita. 

Outra consideração feita pelos médicos é a rapidez para identificar e tratar problemas que podem advir dos procedimentos realizados na harmonização. “Os procedimentos não são isentos de risco e que quanto maior a avaliação é do paciente para entender a saúde deles, ver o que tá indicado pra ele, menor o risco de de acontecer essa complicação”, finaliza o médico.

O rosto como identidade

Suponhamos que você está em um ambiente e chega uma pessoa que você não conhece. Qual é a primeira coisa que você repara nela, o primeiro local para onde seus olhos desviam? Ou, ainda, seu eu te pedir para se lembrar de uma pessoa que você conhece. Ao lembrar dessa pessoa, qual imagem logo surge no seu imaginário?

Provavelmente, para as duas questões anteriores, você respondeu o rosto. E não poderia ser diferente. Afinal, existem pessoas com nomes iguais, mas o rosto é único, característico e a identidade de um indivíduo está nele. Essa é a primeira coisa que notamos em alguém e aquela de que lembramos.

E, como esse cartão de visitas é tão importante para as pessoas, é natural que elas queiram aprimorá-lo, deixá-lo mais agradável aos olhos do outro e mais próximo do que a sociedade considera belo. 

Como explica Luiz Antonio, “a questão da muito voltado pra essa questão de como eu me descrevo. E como eu me descrevo, depende da minha relação com o outro. O outro me ensina a me descrever”.

Ou seja, se eu crescer ouvindo que nariz bonito é aquele fino e de ponta arrebitada e o meu não é assim, vou passar a acreditar que ele é feio. E o que a sociedade considera belo pode ser volátil, inatingível e contraditório. Além de poder representar um risco para sua saúde física e mental.

Os riscos a que um indivíduo está exposto

Passar ou não por uma harmonização facial, ou qualquer outra intervenção estética, é uma decisão pessoal, baseada em inúmeros fatores. Mas, alguns desses procedimentos podem ser irreversíveis ou causar danos físicos e psicológicos. Por isso, antes de entrar em um consultório, é importante entender quais são eles.

Durante as consultas com o médico, ele costuma te mostrar os possíveis resultados, explicar cada um dos procedimentos e os riscos envolvidos em cada um deles, que pode variar. 

Os riscos físicos

Você entra no consultório médico ou odontológico com a ideia de que sairá com o rosto mais harmônico, bonito e feliz com o resultado. Mas nem sempre é isso o que acontece. “Se você não tiver um controle muito bom e conhecer muito bem o produto, ele pode difundir para músculos, que não os que você quer tratar”, explica Mesquita. 

A toxina botulínica, por exemplo, pode atingir os músculos da pálpebra, deixando ela caída. Efeito que pode ser revertido com aplicação de outros produtos, ou que sumindo aos poucos à medida que o botox perder seu efeito. Mas é algo que definitivamente não é pedido pelo paciente quando ele busca um profissional.

E esse nem é um efeito perigoso, já que é reversível. Os mais temidos, na verdade, são os procedimentos em que há preenchimento com ácido hialurônico ou bioestimuladores de colágeno injetáveis. 

“Esses dois produtos, se eles caírem na corrente sanguínea, acabam tapando os vasos sanguíneos que vão levar o sangue pra pele ou pra alguma ou pra alguma artéria importante do do rosto”, explica Adriano. Isso causa riscos como cegueira e mesmo derrame. “Então, são procedimentos que são mais invasivos e têm um risco muito maior de consequências graves e sequelas permanentes”, continua.

A perda de identidade

Outro ponto importante a ser considerado ao se buscar a harmonização facial é o rosto como identidade. E não só porque você corre o risco de ficar parecido com todas as outras pessoas do seu feed no instagram. Mas também porque preenchedores, como toxina botulínica, deixam sua expressão congelada.

Efeito que, ao mesmo tempo que impede que marcas de expressão ou pés de galinha marcados com o tempo transparecem, faz com que certos movimentos importantes deixem de ser notados. “Essas marcas na testa de uma mulher são um sinal de que ela não é mais jovem”, diz Desmond Morris, em seu livro A Mulher Nua. E é daí que vem a necessidade de retirar essas marcas de expressão.

O autor pontua ainda que “a testa é uma região da face que desempenha um importante papel na linguagem corporal”, afinal, é através dos vincos que surgem nela que expressamos nossas rápidas mudanças de espírito e faz com que o outro saiba o que pensamos sobre determinada fala.

Além de perder esse poder de se expressar em poucos segundos e sem precisar falar. Os preenchedores e intervenções estéticas, e não apenas na testa, mas em todas as outras partes do rosto, podem fazer com que você enxergue uma imagem distorcida no espelho. A pesquisa da AAFPRS indicou que 33% dos pacientes estão em busca de retoques discretos e afirmam que o maior receio é um resultado artificial.

Mas “à medida que ele [o paciente] vai fazendo injeção com ácido hialurônico, o cérebro dele vai achando aquilo pouco e ele vai querendo injetar mais. E o cérebro dele não enxerga. E ele vai injetando mais. Daqui a pouco essa paciente está totalmente deformada”, pontua Uguetto.

E, quando o assunto é perder sua identidade após os procedimentos, ainda deve ser levado em consideração que “você passa uma vida acostumado com um estilo de rosto, um estilo de corpo. Quando você faz o procedimento, isso se altera. […] A pessoa olha pro espelho e ela não se reconhece naquela imagem que ela vê.”, afirma Bernardes.  E aí vem um novo processo: se acostumar com uma imagem completamente diferente daquela a qual você estava habituado anteriormente.

“Alguns dão muito certo, ficam lá, teoricamente, harmônicos, mas, por outro lado, tem alguns que não dão certo”, continua o psicólogo. Esse é o caso do cantor e ator Lucas Lucco, que em 2020 passou por uma harmonização facial, não se reconhecia mais no espelho e precisou reverter o procedimento. 

Digamos que você faz parte daquelas pessoas que fez harmonização facial e gostou do resultado final ao se olhar no espelho. O que é importante, afinal era o resultado que você esperava. Mas passam seis meses ou um ano e os efeitos começam a desaparecer. Afinal, o ácido hialurônico e o botox possuem um prazo de validade. 

“Então, você vai fazer, ele vai durar seis meses, vai durar um ano, você vai fazer, vai vencer, você terá que fazer de novo. E de novo. E de novo se você quiser continuar com aquela carinha que foi produzida” diz Luiz Antonio. 

Ou seja, você cria um processo de dependência com aquele procedimento, que é caro, dura pouco tempo e quando perde seus efeitos gera uma terceira imagem Uma que não é igual à anterior ao procedimento, afinal você envelheceu, e tampouco semelhante ao resultado enquanto havia preenchedores ali.  Suponhamos que você tenha gostado do procedimento. E aí você entra nessa. 

“E quando esse [procedimento] acaba, você tem que se deparar, de repente, com o resultado, que antes seria progressivo, agora ele vem de uma vez só. E você não se reconhece, a tua identidade se perdeu”, finaliza o psicólogo.

Por Thaislane Xavier / thaislanexavier@usp.br