Fora das manchetes: como vivem os músicos com mais de um ano de pandemia

Alguns meses após o início da pandemia do novo coronavírus no Brasil, em meados de junho de 2020, a situação dos profissionais mais afetados pela crise sanitária já era destaque em quase todos os veículos jornalísticos. Reportagens acerca da difícil situação dos músicos eram um dos temas mais revisitados: como eles perderam seu trabalho, como sua renda foi afetada etc.

Mais de um ano após o início da pandemia, essas reportagens deixaram de ser frequentes, mas isso não muda o cenário para quem vive de música. Shows ainda não são permitidos e como consequência da pouca circulação de pessoas, bares e até mesmo tocar na rua deixou de ser uma opção. A disrupção do mundo “normal” ainda persiste, e os músicos ainda têm de arrumar algum jeito de se manter financeiramente – e profissionalmente.

Muitos músicos de São Paulo ficaram sem trabalho. Essas pessoas costumavam tocar em bares e restaurantes em troca de dinheiro e com a Covid-19 isso deixou de ser uma possibilidade. “Penso todos os dias em desistir”, disse o músico e estudante Yago Luna, 27, em entrevista à Agência Mural. Segundo a reportagem, após a pandemia, para Luna, conseguir trabalho se tornou uma tarefa quase impossível: “eu tocava em bares à noite, restaurantes e em festas, mas com as medidas restritivas estou sem trabalho”.

Pesquisa da UBC (União Brasileira de Compositores), realizada juntamente com a ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) em dezembro do ano passado, mostrou que 30% dos trabalhadores dos profissionais de música brasileiros perderam toda a sua renda neste período de paralisia. Além disso, 86% dos entrevistados afirmaram sofrer perdas em sua renda devido à crise sanitária.

Alguns músicos buscaram até mesmo complementar sua renda com alguma “carta na manga”. Douglas Leal, guitarrista e vocalista da banda Deaf Kids, diz que com a chegada do novo coronavírus buscou compor parte do que ganhava com a edição de áudios, algo que já fazia para sua banda e outros projetos.

“A partir de 2019, o Deaf Kids era minha renda principal, com turnês internacionais e algumas coisas dentro do Brasil. Em 2020 estávamos prestes a fazer uma turnê no México, Estados Unidos e Europa, e alguns eventos no Brasil. Aí foi aquela parada drástica. O que tem sido meu trabalho agora são os freelas com edição de áudio”.

Apesar de tudo o que aconteceu no fatídico 2020, o Deaf Kids – diferentemente de outras bandas que não tiveram a mesma sorte – continua firme e forte. O grande agente que permitiu isso foi o público, que apoia a banda por meios dos canais digitais, seja com engajamento ou com a compra de material sonoro e doações.

“O bandcamp [plataforma online para artistas independentes conseguirem divulgar e vender a sua música autonomamente] começou a fazer um evento, toda a sexta feira do mês eles abriam mão da parte do lucro deles das vendas digitais por meio do site. E lá fora a galera compra muito música digital para apoiar as bandas. A gente começou a lançar umas coisas nessas sextas-feira. Lançamos uns registros ao vivo, depois eps mais experimentais e isso ajudou muito. Muito apoio da galera. Por muitos meses muita gente comprou e apoiou”, conta.

Além da questão monetária, outro fator que incomoda Leal é a falta de proximidade com o público – uma das coisas que ele mais sente falta.

“O lance da música tem muito a ver com a comunicação nos campos mais sutis. É uma troca verdadeira. Estão sendo emitidas frequências que estão vibrando em você e no outro. O auto falante está ali, alto, batendo no seu corpo”. 

“Música tem essa coisa de reunir pessoas, de pequenos a muitos. O ambiente é uma coisa muito doida. Depois de meses operando nesse ambiente virtual, chega uma hora que faz falta de mais. É levar essas coisas que você está produzindo para eles. Eu acho que o digital não é verdadeiro, é falso. Isso é uma coisa humana, de estar presente… essa troca”.

A falta de renda, a ausência de contato com o público, as incertezas com o futuro… todos esses elementos levam a um denominador comum: o cansaço psicológico. Uma ONG britânica denominada “Help Musicians” realizou um estudo com diversos músicos do país e publicou os resultados em março deste ano. De acordo com a pesquisa, 87% dos entrevistados disseram que a sua saúde mental deteriorou durante a pandemia. Apesar de ser europeu, o estudo denota um pouco do que diversos profissionais do segmento estão sentindo.

Além dos shows

Por outro lado, há aqueles que além de viver de tocar, seguem outros “ramos” na música. Willian Silva é um exemplo. Ele trabalha no ensino de violão, principalmente para crianças e adolescentes, mas diz que costumava tocar em casamentos no município onde vive, Botelhos, em Minas Gerais. “Eu tirava uns 400 reais, mas eu sei que não dava pra viver só disso”. Agora, como ele conta, “tocar acabou, isso zerou”.

“Sou professor há 25 anos. Desde moleque trabalho com música e toco também. Sempre fui esperto, as aulas são coisas que te ajudam. Eu sempre trabalhei com música na área de educação e estava há quatro meses sem dar aula pois não era essencial”, diz.

“Eu escolhi essa profissão porque tenho paciência. Dou aula também para adultos que têm alguma dificuldade na aprendizagem. Sempre tive aptidão e habilidade de trabalhar com as pessoas nessa área”, explica.

A crise sanitária também afetou seu trabalho. Como as aulas são particulares, William e os alunos compartilham o mesmo espaço, e com as medidas de distanciamento social o ensino ficou mais complicado de ser realizado.

“Com a pandemia, muitos alunos não queriam voltar e muitos não queriam retornar às aulas. Pelo menos nos primeiros quatro meses eu tive uma renda guardada para dificuldades. Quando comecei a dar aula de novo as coisas ficaram no vermelho. Cheguei até a receber cesta básica. O que ganho é uma entre pagar as contas e dever um pouco. Eu espero assinar contratos com a prefeitura para receber um pouco mais”, afirma.

Instrumentos de trabalho

Dificuldades financeiras, às vezes, pedem medidas drásticas. Willian disse que acompanha de perto a situação de seus amigos músicos e, de acordo com ele, muitos estão tendo que vender seus próprios instrumentos para sobreviver. Ele explica que há casos em que há um desconto de milhares de reais nos preços dos instrumentos.

“Meu amigo comprou um teclado barato de um cara. Eu pensei ‘eu vou ficar com um aperto no coração se eu tiver que comprar de alguém’, porque ele está vendendo o que não era para ser vendido. Está vendendo sua ferramenta de trabalho a preço de banana para botar comida na casa”, conta.

Por Guilherme Roque