Brasil, o país que mais matou grávidas em meio à pandemia

A manhã daquela sexta-feira, 17 de julho de 2020, nasceu impregnada de esperança para a vendedora de cosméticos Helena França: durante a madrugada anterior, sua filha Ana Paula França, de 37 anos, finalmente tinha sido internada para tratar uma suspeita de Covid-19, no Hospital Manoel Novaes, em Itabuna (BA), a 400 km de Salvador. Grávida de 36 semanas, a esteticista havia passado a semana procurando atendimento em várias unidades de saúde do município, no sul do estado, com queixas de vômitos e falta de ar. 

“Falavam para ela voltar para casa e tomar dipirona”, relembra Helena. Naquele sábado, no entanto, a equipe de saúde do hospital decidiu transferir Ana Paula para uma UTI, no município de Feira de Santana. À época, foi informado que 60% do pulmão da grávida já estava comprometido – um teste rápido, que apresenta maior imprecisão nos resultados em comparação aos convencionais de laboratório, contudo, deu negativo para o novo coronavírus. No trajeto, dentro da ambulância, o tempo de espera pela intubação se esgotou: à altura do Hospital de Gandu, cerca de 220 km distante do destino, ela faleceu. 

Para a família, a equipe médica alegou ter tentado fazer o parto de Arthur no hospital, mas o bebê já não tinha batimentos cardíacos. O resultado positivo para a doença veio após a morte da mulher, via RT-PCR. “Foi um pedaço de mim que eu perdi, juntamente com o meu neto que já estava para nascer”, lamenta a mãe da gestante. Àquela altura, ela não sabia que sua filha se juntava às 184 mulheres grávidas ou nos 42 dias após o parto que já tinham sido vítimas da doença no país – número que, à época, representava 77% das mortes maternas registradas mundo afora.

A morte de Ana Paula somava-se à de Rafaela da Silva de Jesus, de 28 anos, grávida falecida em 1º de abril em Itapetinga (BA) numa Unidade de Pronto Atendimento (UPA) enquanto aguardava ambulância para ser transferida para uma UTI em Campina Grande (PB); à de Aline Cristina de Oliveira, gestante de 35 anos que morreu após passar por um parto de emergência na cidade do Rio de Janeiro, em 11 de maio; à de Patydan Cardoso, de 34 anos, que perdeu o bebê após um parto induzido por conta da Covid-19 e não resistiu às sequelas da doença, partindo no dia 23 de junho, em Rio Branco (AC); e às de outras centenas de mulheres grávidas e puérperas que já beiram as trezentas no Brasil, segundo dados preliminares liberados à Babel por Carla Betina Andreucci Polido, uma das pesquisadoras responsáveis pela compilação desse número no país. 

Médica obstetra e investigadora da mortalidade materna há anos, quando os primeiros casos do novo coronavírus foram notificados no Brasil, ela já temia que esse índice se agravaria em território nacional. A professora do curso de Medicina da UFSCar tinha acompanhado de perto o crescimento dos óbitos entre grávidas e puérperas em função da epidemia de influenza H1N1, em 2009, responsável por 57 mortes maternas no país. Mas esse não era o único motivo que justificava sua preocupação. “Por causa das condições da saúde pública brasileira, particularmente da assistência à saúde da gestante, imaginamos que a chegada da pandemia causaria um estrago enorme”, relembra ela, que também é pós-doutora em epidemiologia.

Por ano, o Brasil registra cerca de 60 mortes de mulheres grávidas ou puérperas a cada 100 mil nascimentos de bebês vivos, uma taxa considerada alta. A título de comparação, Portugal e Argentina têm 8 e 39 mortes por 100 mil, respectivamente. O índice brasileiro está bem acima da meta firmada com a Organização das Nações Unidas (ONU), que é de 30 óbitos para cada 100 mil até 2030, conforme os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. 

Imagem: Getty Images

Temendo que o Ministério da Saúde não organizasse esses dados em tempo hábil – o último levantamento nacional sobre os óbitos maternos remete ao ano de 2018 –, a médica e um time multidisciplinar formado por enfermeiras, obstetras e uma psicóloga, espalhadas por diferentes regiões do Brasil, decidiram se aliar à imprensa. Ligadas a universidades e instituições públicas como Fiocruz, USP, Unicamp e Unesp, as especialistas criaram alertas no Google para receber todas as matérias publicadas sobre gestantes vítimas da Covid-19 no país, revirando portais de notícias de A à Z. Pouco tempo depois, quando as mortes pela doença passaram a ser registradas pelo governo na plataforma Sivep-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe) – onde são registradas todas as internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), ou seja, os pacientes mais graves – elas começaram a cruzar os números, compilando os que fossem referentes às mulheres grávidas e puérperas. Até outubro deste ano, já tinham publicado ao menos 7 estudos com os resultados. 

Em um deles, veiculado em julho pela revista médica International Journal of Gynecology and Obstetrics, que analisa 124 óbitos, o grupo revelou que 22,6% das gestantes que morreram no Brasil não tiveram acesso a um leito de UTI e 36% não chegaram a ser intubadas. Entre as hipóteses que ajudam a explicar esse quadro, as especialistas citam a má qualidade do pré-natal no país, recursos insuficientes para o manejo de situações de emergência e dificuldades no acesso aos serviços de saúde durante a pandemia. 

Não à toa, poucos dias após a publicação do documento, o Ministério da Saúde informou que as mulheres grávidas seriam submetidas a protocolos específicos de atendimento, incluindo uma testagem em massa no final da gestação. O anúncio – considerado tardio por Carla –, no entanto, não foi acompanhado por uma política institucional que promovesse essas medidas em larga escala. Esforços individuais – geralmente das equipes de hospitais ligados às faculdades de medicina –, contudo, têm sido vinculados a bons resultados. 

“Só que isso não está chegando para a maioria das nossas gestantes”, alerta a obstetra. “Desenvolver um protocolo, mas não distribuir recursos para que ele seja implantado ou fazer esforços para que realmente haja uma adesão por parte dos gestores, faz parecer que o governo só cumpriu o check-list de desenhar um protocolo”. 

À época, pelo número de mortes maternas, o Brasil já se apresentava como o país mais perigoso para gestantes em meio à pandemia, seguido por México e Estados Unidos. “Existe alguma diferença biológica entre as mulheres brasileiras, mexicanas e norte-americanas comparadas ao resto do mundo?”, indaga Carla, de forma retórica. De imediato, responde: “Não. O que temos são falhas de diagnóstico e nos recursos terapêuticos que estão sendo oferecidos às grávidas nesses países”. 

“Pela lógica, se um idoso diabético e uma grávida pegam Covid-19, ela terá mais chances de sobreviver, porque, apesar de ter maior sensibilidade para infecções, seu potencial para responder a doença é maior do que o do idoso”, explica ela. “Só que isso não está acontecendo: nossos idosos estão morrendo, mas nossas grávidas também. É aí que a gente vê o nível de qualidade de assistência que o país está prestando para esse público”.

A transferência

Três dias antes da morte de Ana Paula, numa quinta-feira, 16 de julho, uma de suas quatro irmãs ficou tão inquieta com o estado de saúde da gestante que mal conseguiu fechar os olhos à noite. Atualmente desempregada, Naiara tinha ido passar uns dias com a mãe, que mora no térreo da casa onde viviam Paula junto ao marido e duas filhas pequenas – Ana Beatriz, de 12 anos; e Ana Letícia, de 9. À época, a família vivia um luto recente: em março, tinham perdido Luiz, esposo de Helena e “vovô da família”, falecido aos 75 anos em decorrência de um infarto. Do quarto de Ana Paula, onde subiu para checar a situação da irmã, Naiara notou que os dedos das mãos e dos pés da grávida estavam roxos. Sozinha, porque há pouco se separara do marido após problemas conjugais, a mulher foi encontrada com a respiração curta e veloz. “Não dá pra ficar assim, precisa ir no médico de novo”, exclamou Naiara. À irmã, de olhos entreabertos, Paula só conseguiu balbuciar: “Não, já estou deitada”. 

Na última semana, a gestante tinha passado por quatro hospitais da rede pública de Itabuna: Hospital Calixto Midlej Filho, Hospital Manoel Novaes, Maternidade Ester Gomes, Santa Casa da Misericórdia de Itabuna e UPA – Monte Cristo. “Ninguém percebeu que ela já estava com Covid-19”, reclama Helena. Os sintomas despontaram na esteticista por volta do dia 7 de julho, dois dias após ter ido com uma amiga a Ilhéus (BA) para fazer um ensaio fotográfico de grávida. “Ela começou a tossir, sentir dores na garganta e vomitar várias vezes ao dia”, lembra Helena. 

Por conta do período de incubação do novo coronavírus, estimado em cinco dias, a família acredita que a contaminação não teve relação direta com a ida à praia. Micropigmentadora, Paula também já tinha retomado as atividades em sua clínica, onde fazia design de sobrancelha. “Ela usava máscara, passava álcool em gel em todos os objetos e pedia para que as clientes gripadas não viessem”, conta Naiara, que ajudava na limpeza do local, inaugurado pela irmã em 2018. Passados quatro meses desde o falecimento da gestante, eles ainda têm dúvidas sobre quem trouxe a doença para dentro de casa, já que Helena e o ex-marido de Paula, José Fabiano, também apresentaram sintomas da Covid-19 no mesmo período, como tosse e febre.  

Foto: Arquivo pessoal

Na madrugada do dia 17, de volta ao Hospital Manoel Novaes, a gestante tinha dificuldades até para beber água. Trajando máscara de proteção e uma touca descartável nos cabelos, no leito improvisado onde Ana Paula foi internada, Naiara acompanhou de perto a evolução do quadro da irmã – que não tinha nenhuma comorbidade. Assustada com o som que o monitor de sinais vitais emitia quando Paula se levantava, decidiu improvisar um “banheiro” próximo à cama, usando uma bacia para auxiliá-la em suas necessidades. Com a voz entrecortada, como acontece a quem coloca em palavras algum acontecimento que deixou marcas, ela lembra: “Se ela levantasse, a oxigenação descia para 54, 50 [abaixo do normal]. E eu ia só orando ‘meu Deus, meu Deus’ a noite toda”.

Não foi pouco o alívio que a irmã experimentou quando, no final do dia, uma enfermeira comunicou que Paula seria transferida para uma UTI, em Feira de Santana, onde ela seria entubada. “De madrugada, disseram que tinham conseguido uma UTI aérea para fazer o transporte dela”, lembra Naiara. Na manhã seguinte, porém, as expectativas foram frustradas: uma ambulância avançada, mas terrestre, aguardava no local. “Disseram que a oxigenação dela estava normal, que não precisava ir de avião, mas que um médico acompanharia o trajeto”. Apreensiva, Naiara trocou um olhar demorado com a irmã, que já esperava sentada em uma cadeira de rodas. “Eu estou indo pra lá, minha irmã, vai com Deus”, prometeu, com a voz embargada. A gestante não conseguiu dizer nada. 

‘Faltou cuidado para que ela continuasse vivendo’

A notícia do falecimento de Ana Paula correu rápido por Itabuna. Menos de uma hora depois da tragédia, Lila Barreto, amiga da esteticista, recebeu algumas ligações de colegas do município, onde viveu até 2006, quando mudou-se com o marido para Vitória da Conquista (BA). “Foi inacreditável, a gente ficou achando que poderia ter sido outra pessoa”, lembra. O fato também pegou de surpresa Heloísa França, irmã da gestante. Moradora do Espírito Santo (ES) há cerca de 10 anos, ela acreditava que, em breve, Paula se recuperaria. “Foi um choque, até porque a gente tinha perdido nosso pai em maio. Foi um luto atrás do outro”.

Ao ouvir uma de suas netas dizendo que a gestante “não estava bem”, Helena soube de imediato que a filha tinha morrido. Quis sair correndo para ver se a encontrava no hospital. Quando a neta explicou que Ana Paula e o bebê Arthur tinham falecido no trajeto para Feira de Santana, à altura do Hospital de Gandu, a mulher de 64 anos desabou. “Meu mundo caiu, fiquei sem chão”, se recorda. Para ela, o destino da filha podia ter sido outro: “foi negligência médica, faltou cuidado para que ela continuasse vivendo”.

A alegação também ecoa em uma cena testemunhada por Naiara e Andrea França, outra irmã de Ana Paula, que acompanharam de perto a entrada da gestante na ambulância. “Colocaram máscara e a enfermeira perguntou para o profissional que ia na ambulância: ‘Como é que está o oxigênio? Está tudo bem?’ e ele respondeu: ‘Rapaz, eu acho que dá’. Ela questionou: ‘Você acha que dá ou dá, porque se não tiver certeza a gente para aqui agora’. Ele balançou simplesmente o cilindro. Por que o oxigênio que dava para chegar em Feira de Santana, ela não conseguiu chegar em Gandu?”, questionou à época Andrea, em entrevista à TV Santa Cruz. 

Casado por cerca de vinte anos com Ana Paula, o representante de vendas José Fabiano, que tentou com familiares acompanhar de carro o trajeto feito pela ambulância, disse que seus parentes já recorreram ao Ministério Público da Bahia para tentar esclarecer as dúvidas sobre o caso, mas que ainda não obtiveram respostas.  

À Babel, a Santa Casa da Misericórdia de Itabuna, responsável pelo Hospital Manoel Novaes, informou que, como o hospital não foi habilitado para oferecer serviços para grávidas com Covid-19, acolheu a paciente em um “leito de estabilização destinado para isolamento pediátrico” e “solicitou vaga em unidade COVID que aceitasse gestantes, através da Central Estadual de Regulação”. A instituição afirmou ainda que demandou uma UTI aérea para a transferência de Ana Paula, mas que, no que diz respeito ao transporte, quem toma a decisão final é “o médico regulador do Estado da Bahia”.

Como as ambulâncias são enviadas pela Central Estadual de Saúde, permanecem sob a responsabilidade do Governo do Estado da Bahia, e não do Hospital Manoel Novaes, acrescentou em nota a Santa Casa. “Elas chegam prontas para fazer o transporte, então não é de nossa competência checar equipamentos, mas sabemos que a paciente saiu da unidade em uso de O2 [oxigênio]”. 

O órgão enfatizou que o local não foi preparado para receber gestantes com a doença mas que, devido à pandemia, “tem atendido essas pacientes da melhor forma possível”. 

No início de 2019, no entanto, a pedido da Prefeitura de Itabuna, o Hospital Manoel Novaes desligou uma série de médicos obstetras de seu corpo de funcionários. Quem fez a denúncia foi o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb), em carta-comunicado publicada em março de 2020. “A população da região Sul do estado da Bahia corre o risco iminente de não ter atendimento às gestantes em trabalho de parto e aos recém-nascidos de alto risco”, começa o documento. Descrita pelo órgão como “aparentemente unilateral” por parte da prefeitura, a leva de demissões ocorreu após o anúncio oficial de que atendimentos a partos de risco passariam a acontecer também na Maternidade Ester Gomes, localizada a 4 km do local, de forma a dividir a demanda entre as duas redes. De acordo com o Cremeb, no entanto, a maternidade “tem falhado em cumprir seu contrato”, o que vem sobrecarregando a equipe remanescente do Manoel Novaes e, além de superlotação, já levou a “diversas situações de constrangimento e desrespeito” com pacientes no espaço. 

Trecho de comunicado-carta emitido pelo Cremeb em março de 2020/Fonte: Site Cremeb

Quando Naiara perguntou ao hospital se Ana Paula podia passar por uma cesárea antes de ser transferida para a UTI, recebeu a resposta de que “não havia leito” disponível para o procedimento. À Babel, a Santa Casa afirmou que o parto não foi antecipado porque “a paciente não tinha queixas obstétricas e não estava em trabalho de parto”. Segundo a irmã, no entanto, a esteticista reclamava de dores no “pé da barriga” desde a madrugada anterior.  

Mãe de duas meninas, ela gestava seu primeiro filho homem. A expectativa da família, majoritariamente formada por mulheres, era alta. A mais velha de suas filhas já treinava para ajudar a dar banho no irmão. Às vezes, encostava a cabeça rente à barriga dela para conversar com o bebê. Com a ajuda dos parentes, a grávida tinha preparado tudo para a chegada de Arthur: quarto, enxoval, dinheiro para a cesárea. “Faltava só passar as roupinhas”, diz Helena, com a voz baixa. “Mas eu dizia para ela: não se preocupe, filha, que eu mesma vou passar quando você voltar do hospital”. 

Uma questão estrutural

Promessa do Ministério da Saúde, a testagem em massa das gestantes não alcançou Ana Paula. “Obrigatoriamente, qualquer sintoma de Covid-19 em uma mulher grávida já deveria indicar a realização do RT-PCR”, enfatiza Carla. Para a médica obstetra, o governo falhou ao não investir em um rastreamento mais efetivo da doença nessa população. Mesmo em relação às pacientes diagnosticadas, não foram poucos os casos em que algumas equipes não sabiam o que fazer ou para onde encaminhar o resultado dos exames. A pesquisadora dá nome ao problema – ou “falha estrutural”, em suas palavras: desarticulação nacional da rede de saúde. 

“Muitas vezes, um paciente que já é acompanhado por uma questão crônica acaba sendo internado por alguma complicação, e o hospital que faz a internação simplesmente não tem acesso ao prontuário dele, assim como a unidade que vai recebê-lo depois não sabe o que aconteceu no hospital”, argumenta. “Existe uma lacuna enorme entre os diferentes níveis de atenção à saúde em todos os municípios do país”.

Em meio à pandemia, a pesquisadora da UFSCar acredita que um diálogo eficaz entre as ginecologistas obstetras de Unidades Básicas de Saúde (UBS) e as equipes multidisciplinares das Unidades de Saúde da Família (USF) – que estão à frente das visitas domiciliares de populações mais vulneráveis – poderia ser uma estratégia no combate à doença entre as gestantes. Isso porque as primeiras teriam como auxiliar essas últimas na tomada de ações específicas para esse cenário – conhecido como matriciamento, esse modo de trabalho multiprofissional permite diversificar as propostas de intervenção de saúde, num trabalho de construção compartilhada. Um dos estudos realizados pelo grupo do qual a médica faz parte, inclusive, mostrou que morar em um município com estratégia de saúde da família foi um fator protetor para a manutenção da gestação durante a pandemia. 

A visita domiciliar também pode evitar o deslocamento das mulheres grávidas às unidades de saúde, onde o risco de contágio pelo novo coronavírus é maior, e auxiliar no acompanhamento do pré-natal – forçadamente interrompido por muitas grávidas durante a pandemia –, essencial para garantir a saúde da mãe e do bebê durante a gravidez. “Faltaram iniciativas que ajudassem as gestantes do sistema de saúde público a continuarem fazendo o pré-natal”, analisa Carla.

Imagem: Getty Images

As buscas do grupo de profissionais que estão mapeando a mortalidade materna por Covid-19 no Brasil também revelaram que muitas das vítimas moravam a mais de 100 km do hospital de notificação do óbito, ressaltando que a necessidade de viagem para uma unidade com UTI se apresentou como um fator de risco para as mulheres que não moravam no centro das cidades – onde a presença de unidades de saúde mais bem equipadas é maior. Para Carla, os dados revelam outro problema nacional: a centralização das redes hospitalares avançadas. 

A desigualdade no acesso a esses serviços também teve reflexo na cor dos óbitos: mulheres grávidas pretas tiveram quase o dobro de chances de morrer pela doença do que as grávidas brancas (17% contra 8,9%, em 69 casos pesquisados). Os números são reforçados pelo panorama geral da mortalidade materna no país: segundo o último levantamento do Ministério da Saúde, mulheres pretas e pardas respondem por 65% dessas mortes. Em comum, os dois resultados revelam não só as falhas de acesso do sistema de saúde, mas o racismo estrutural e os problemas socioeconômicos que historicamente afetam esse grupo.

“O que está acontecendo com as grávidas e puérperas é um exemplo do que está acontecendo com todas as populações vulneráveis do país”, analisa a obstetra.

Luta e luto

De volta à madrugada do dia 17 de julho, Helena embarga a voz ao lembrar das últimas palavras que trocou com a filha. Prestes a entrar no carro para acompanhá-la até o hospital, ouviu de Ana Paula um pedido: “Mainha, a senhora fica: cuide das meninas, minhas jóias preciosas”. Quatro meses após o ocorrido, ela, com a ajuda das filhas, decidiu que vai tentar pedir a guarda compartilhada com o pai das netas. Teme que as crianças percam o legado deixado pela esteticista, lembrada pelos mais próximos e até pelos que pouco a conheciam como leal à família, empreendedora e abnegada. Tão desprendida de si era ela que Heloísa acredita que, se a irmã tivesse buscado atendimento médico nos primeiros dias em que apareceram os sintomas, talvez seu desfecho tivesse sido outro. “Mas, mesmo quando ela procurou, não foi bem atendida”, se entristece.   

Onze meses mais velha que Ana Paula, Heloísa viu a irmã pela última vez em 2016. A esteticista tinha ido para São Mateus (ES) a trabalho. “Ela falou ‘olha, arranja algumas clientes pra mim que eu vou aí’”, lembra ela, à época consultora de produtos de beleza no município, onde cursava administração. Chamadas de “gêmeas” quando mais novas, as irmãs costumavam trocar ideias sobre seus empreendimentos por ligação. “Ela começou a atender clientes em casa, abriu a clínica em 2018. Seu sonho era que a marca ‘Paula França’ fosse conhecida”, conta. 

Na adolescência, impulsionadas pelo desejo de ajudar os pais e ter algum dinheiro próprio, a dupla vendia bombons em Itabuna. Em janeiro deste ano, a gestante sugeriu à Heloísa que voltasse a morar na cidade onde cresceram, de onde ela tinha se mudado em 13 de março de 2010. “Disse que a nossa vida é passageira, que corremos atrás de trabalho e dinheiro, mas que a gente devia se preocupar com o mais importante”. Impossibilitada por conta dos estudos e do emprego do marido, não conseguiu retornar. Após um longo suspiro, faz memória da conversa: “Isso me marcou muito, mas a gente não tem que ficar se martirizando pelo que já passou”. Hoje, mora mais próxima à família, em Anápolis, no interior de Goiás. 

Da esquerda para a direita: Eldrian (esposo de Heloísa), Heloísa, Andréa, Naiara, Carlos Alessandro (irmão), Márcia Valéria, Ana Paula. Foto: Arquivo pessoal

No rosto, Helena, Naiara e Heloísa carregam a marca do trabalho de Ana Paula. Não são poucas as vezes em que, andando na rua, escutam o elogio saído da boca de desconhecidos: ‘que lindo design de sobrancelha!’. Para Lila, amiga cabeleireira da esteticista, ela parecia ter nascido com o dom para a micropigmentação. “Fez alguns cursos, mas era autodidata: assistia um vídeo e já começava a fazer muito bem as coisas”. 

Quarta filha de Helena, Paula começou a andar aos oito meses de idade, como se já tivesse um. Cristã, ela também se destacou por sua atuação no ministério de dança da igreja evangélica que frequentou por vários anos. “Era muito intensa em tudo que se propunha a fazer, uma das pessoas mais dedicadas”, lembra o apóstolo Irlan, que, junto à esposa pastora, realizou o culto fúnebre da gestante. Mas a alegria da mãe tinha nome e sobrenome: Ana Letícia e Ana Beatriz. Se referia às filhas como sua vida “fora do peito”. Gostava de organizar festas de aniversário caseiras para as meninas, fazer penteados em seus cachos negros, acompanhar seus estudos. Quando olha para fotos das três, Naiara não disfarça as lágrimas, audíveis mesmo à distância, por telefone: “Tratava as filhas como bonecas, princesas”. 

Nos meses que antecederam sua partida, no entanto, a mulher de pele parda que chamava atenção pelo sorriso largo e a sobrancelha delineada parecia já não ser a mesma. “Quando chegava em casa do trabalho, se jogava no sofá e ficava lá por horas. Eu dizia ‘oh minha filha, pelo amor de Deus, está precisando de alguma coisa?”, relembra Helena. O cansaço ia além da barriga que crescia: somado ao luto vivido em relação ao pai, a quem carinhosamente chamava de “meu velhinho”, Ana Paula estava preocupada com o futuro dos filhos. 

Há pouco, uma série de decepções com o marido tinham levado ao afastamento dos dois. À mãe, questionava: “Como vou criar três filhos sozinha?”. Helena tentava restaurar a esperança da filha: “Eu vou ficar com o Arthur enquanto você trabalha, quem sabe Deus envia um homem que vai fazer a diferença na sua vida”. Perdeu o ânimo para acompanhar o pré-natal, questionava se conseguiria sobreviver ao parto. “Dizia: tenho mesmo que fazer o acompanhamento?”.  

Religiosa, Helena acredita que a morte de Ana Paula aconteceu com a permissão de Deus. Que a filha foi poupada de maiores sofrimentos. É o que também dá forças à Naiara e à Heloísa, para quem a gestante “já está na glória”. Mas, por vezes, a sensação de impotência diante dos acontecimentos ainda perturba o coração da mãe. “É uma coisa que não volta mais, creio que foi negligência dos médicos, só que, ao mesmo tempo, não sei se ela ia aguentar”. Seis vezes mãe, a viúva respira fundo e diz, confiante: “Deus sabe de todas as coisas, sabe o que faz”.

*Ilustração: Natálie Majolo

Por Camila Mazzotto / camila.mazzotto@usp.br